Os desafios da USP

Com a escolha de seu novo reitor, o médico Marco Antonio Zago, que obteve mais votos que os dois concorrentes somados numa campanha bastante disputada, a Universidade de São Paulo (USP) terá agora de enfrentar o desafio da reorganização administrativa e da modernização acadêmica e pedagógica. Maior instituição de ensino superior da América Latina, com cerca de 115 mil professores, estudantes e servidores técnicos e um orçamento de R$ 4,3 bilhões, nos últimos anos perdeu posições importantes nos rankings comparativos internacionais de qualidade. Também registrou taxas recordes de evasão nos cursos de graduação - na casa dos 25% - e foi alvo de sistemáticas depredações e invasões promovidas por pequenos grupos de baderneiros travestidos de estudantes. Por fim, a instituição tem sido objeto de um acirrado debate interno sobre suas principais atribuições.

O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2013 | 02h22

Afinal, qual é o papel da USP - formar as elites intelectuais, científicas e gerenciais do País, como propunham seus fundadores, na década de 1930? Substituir o princípio do mérito por políticas de ação afirmativa, promovendo inclusão social, a exemplo do que vem ocorrendo com as universidades federais? Concentrar recursos humanos e financeiros na pós-graduação, valorizando o desenvolvimento científico com base em pesquisas de ponta? Ou concentrar-se nas atividades de graduação, adotando currículos mais flexíveis e criando novos cursos de caráter interdisciplinar, acompanhando as novas tecnologias de produção de bens e serviços?

Esse debate, paradoxalmente, decorre do extraordinário sucesso que a USP alcançou em seus quase 80 anos de vida. A instituição foi decisiva para a industrialização de São Paulo e, por tabela, para uma mudança no perfil socioeconômico do País. Todavia, ela cresceu demais e seu processo decisório - excessivamente rígido e centralizador - se converteu em camisa de força, dispensando o mesmo tratamento aos institutos de ciências básicas, aos cursos de humanidades e às grandes escolas profissionais, como as faculdades de direito, de medicina e de engenharia.

Por trás das demandas por maior democratização da USP, que foi um dos principais temas da campanha pela Reitoria, está, justamente, a reivindicação de maior autonomia administrativa, acadêmica e pedagógica por parte dos departamentos e faculdades da instituição. Hoje, uma simples alteração de currículo tem de ser aprovada por vários órgãos colegiados e demora mais de um ano para ser efetivamente concluída. Pedidos de afastamentos para que professores possam participar de seminários ou congressos têm de passar pela Reitoria. Também centralizadas pela Reitoria, as avaliações docentes valorizam excessivamente os indicadores de produtividade, na forma de publicação de artigos num circuito restrito de publicações científicas. Por fim, o modelo pedagógico vigente está longe dos padrões adotados pelas universidades que lideram os rankings internacionais, principalmente as americanas e as asiáticas, onde os alunos tem autonomia para definir os currículos que julgam mais adequados a sua formação.

Em sua origem, a USP foi concebida para cumprir três funções complementares: formar profissionais qualificados com base no conhecimento, produzir conhecimento novo e contribuir para o desenvolvimento do País. Nos últimos anos, contudo, essas atribuições ficaram desequilibradas, com a produção de artigos científicos - fortemente estimulada pelas agências de fomento à pesquisa, como CNPq e Capes - prevalecendo sobre um ensino de graduação com qualidade e maior interação com a iniciativa privada.

O maior desafio do novo reitor da instituição é restabelecer o equilíbrio entre essas três atribuições, permitindo o planejamento diferenciado entre os cursos de humanidades, os institutos de ciências básicas e as escolas profissionais. É, igualmente, desburocratizar o sistema de gestão, descentralizar os processos decisórios e criar as condições para que a instituição se aproxime mais da sociedade. Só assim a USP poderá aspirar a ser uma universidade de classe mundial, como queriam seus fundadores.

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