Os juros do Fed

Com a economia em recuperação, desemprego elevado e reformas emperradas, o Brasil é vulnerável a um aperto mais forte na política de juros do Federal Reserve (Fed)

O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2018 | 03h15

Com a economia em recuperação, desemprego ainda elevado e reformas emperradas, o Brasil é especialmente vulnerável a um aperto mais forte na política de juros do banco central americano, o Federal Reserve (Fed), o mais poderoso do mundo, capaz de afetar o mercado internacional de financiamentos e investimentos. Mas o aperto deve continuar gradual, como tem sido até agora, segundo indicou ontem o novo presidente do Fed, Jerome Powell, em seu primeiro depoimento na Câmara de Representantes dos Estados Unidos. A ideia, segundo ele, é manter a estratégia seguida com sucesso pela antecessora, Janet Yellen: tornar as condições de crédito menos frouxas, mas com muito cuidado até a inflação atingir a meta de longo prazo de 2% ao ano. Tranquilizador, o recado chegou, no entanto, com a ressalva habitual e hoje mais importante que nas fases anteriores: o rumo das decisões dependerá, como sempre, das perspectivas indicadas pelas novas informações.

A expectativa de três aumentos de juros neste ano foi reafirmada pela maior parte dos especialistas ouvidos pela imprensa, depois da apresentação. Alguns mantiveram, no entanto, a previsão de quatro aumentos, levando em conta o firme crescimento da economia americana, a multiplicação de empregos e a possível intensificação das pressões inflacionárias. Nenhuma frase de Jerome Powell favoreceu diretamente essa avaliação, embora sua descrição inicial do quadro econômico tenha sido quase entusiástica.

O novo presidente do Fed enfatizou o aumento da atividade no segundo semestre de 2017, quando a taxa anual de crescimento ficou perto de 3%. Essa expansão, assinalou Powell, foi sustentada tanto pelo consumo das famílias quanto pelo investimento empresarial em meios de produção. Ele ainda mencionou o efeito estimulante da recente redução de impostos e da expansão do gasto público. O desemprego, de 4,1%, é o menor desde dezembro do ano 2000, e a melhora do mercado de trabalho deverá realimentar os negócios.

Tudo isso ocorre, assinalou Powell, com inflação ainda contida. Os preços ao consumidor, no entanto, devem continuar em alta neste ano e aproximar-se da meta de longo prazo de 2% ao ano. Nesse trajeto, o Comitê Federal de Mercado Aberto, responsável pela estratégia de juros e de crédito, deverá continuar “diminuindo gradualmente a acomodação da política monetária”. Na opinião do comitê, acrescentou, a elevação gradual dos juros será o melhor caminho para promover o duplo objetivo da política do Fed – o máximo emprego compatível com inflação baixa e estável.

Powell deu pouca ou nenhuma importância às turbulências observadas no mercado financeiro recentemente. Apesar de alguma instabilidade, observou, as condições financeiras permanecem confortáveis.

De modo geral, ele procurou transmitir a noção de uma tranquila continuidade na condução do banco central. Quando seu nome foi indicado pelo presidente Donald Trump, houve especulações sobre a possível implantação de uma política mais frouxa e mais favorável, a curto prazo, ao crescimento econômico. A mensagem de Powell apontou algo diferente: deve ser mantida a estratégia de abandono gradual dos estímulos adotados para a recuperação da economia, com atenção tanto aos sinais da atividade e do emprego como à evolução dos preços.

Na Europa, onde o crescimento econômico tem superado as previsões, a recuperação está menos adiantada que nos Estados Unidos e o fim da política frouxa deve ser mais demorado. Mas a melhora do emprego e a aceleração dos negócios tendem, segundo os analistas, a alimentar a inflação e isso deverá resultar em algum aperto monetário.

Se a mudança das políticas for suave, tanto melhor para as empresas mais endividadas e para os países mais vulneráveis a choques externos. Mas nenhum empresário e nenhuma autoridade nacional deveriam interpretar as condições ainda favoráveis como oportunidade para descuidar das correções. No Brasil, os ajustes e reformas continuam tão indispensáveis quanto urgentes.

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