Os juros na crise política

Será preciso, logo depois, considerar outra questão: por quanto tempo o Copom será capaz de manter seu esforço pela contenção da alta de preços? Esta é uma das grandes interrogações suscitadas pela crise política

O Estado de S.Paulo

30 Maio 2017 | 03h07

Um dos principais componentes do cenário econômico, a política de juros, será submetido a um teste importante nesta semana. A crise iniciada com as denúncias contra o presidente Michel Temer será o pano de fundo, hoje e amanhã, das decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), responsável pela fixação do preço básico do dinheiro. A taxa básica de juros, a Selic, foi reduzida de 14,25% ao ano para 11,25% entre outubro e abril. Analistas vinham apostando num aumento do corte – de 1% para 1,25% – na reunião prevista para este fim de mês. A inflação em queda e a expectativa de avanço na aprovação e execução de reformas, apesar de alguns obstáculos preocupantes, pareciam autorizar essa aposta. A avaliação dos membros do Copom, dado fundamental a curto prazo, será conhecida amanhã.

Ao explicar sua decisão, os membros do comitê deverão comentar, como sempre, as perspectivas de evolução dos preços, as condições de crescimento econômico e as expectativas de ajuste das contas públicas e de avanço no programa de reformas. Para isso terão de avaliar os impactos imediatos e os possíveis efeitos de médio prazo da crise política. É difícil prever como será a linguagem, mas os comunicados do Copom têm sido, sob a presidência de Ilan Goldfajn, mais diretos e claros do que eram tradicionalmente. Se o padrão for mantido, as explicações aparecerão, em versão resumida, no texto distribuído regularmente depois da reunião, e depois, com mais detalhes, na ata a ser publicada na próxima semana.

A justificativa de qualquer decisão deverá ter como ponto principal o compromisso com a estabilidade monetária, mandato principal do BC. O comunicado e a ata ajudarão o público a avaliar tecnicamente as implicações da crise.

Mas será preciso, logo depois, considerar outra questão: por quanto tempo o Copom será capaz de manter seu esforço pela contenção da alta de preços? Esta é uma das grandes interrogações suscitadas pela crise política.

No Brasil, vigora um compromisso de autonomia operacional para o BC e os fatos parecem confirmar, até agora, o respeito a esse acordo. Mas a autoridade monetária continua, legalmente, subordinada à Presidência da República e, portanto, vulnerável às consequências mais graves de qualquer instabilidade política.

O Ministério da Fazenda tem sido forçado a negociar longamente os projetos de interesse do governo com parlamentares da base aliada. Recuos e concessões consideráveis têm ocorrido nessas negociações. Com a Presidência sob ataque mais intenso desde a semana passada, os entendimentos ficaram naturalmente mais complicados.

O Executivo está mais vulnerável, obviamente, a tentativas de chantagem de parlamentares dispostos a tirar vantagem das dificuldades do presidente. Um BC independente do Executivo seria uma garantia de estabilidade pelo menos em uma área da administração federal. Na falta de outras barreiras, haveria pelo menos um elemento de moderação da alta de preços, num ambiente de grande incerteza política.

Por enquanto, vão piorando as expectativas do mercado, embora as mudanças nas projeções ainda sejam marginais. A pesquisa Focus distribuída ontem pelo BC mostra uma deterioração das expectativas quanto à evolução dos preços e à atividade econômica. Depois de 11 semanas de queda, a inflação projetada para 2017 aumentou, com a mediana das estimativas passando de 3,92% para 3,95%. A mudança é pequena, mas significativa. A expectativa de crescimento econômico, já muito baixa, saiu de 0,50% para 0,49% neste ano e de 2,50% para 2,48% no próximo.

A projeção da taxa básica de juros para o fim de 2017 e do próximo continuou em 8,50%. Não se havia alterado quando aumentaram as apostas num corte mais intenso na reunião desta semana nem mudou quando as expectativas se acomodaram de novo em 1%. A decisão a ser anunciada amanhã pelo Copom será uma novidade especialmente importante, no quadro de crise, mas ainda mais interessante será com certeza a explicação.

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