Os Kirchners e a década perdida

Numa nova tentativa de reconquistar parte do apoio que a presidente argentina Cristina Kirchner perde velozmente, a Casa Rosada vem procurando popularizar o nome de "década ganha" para a grande festa de comemoração dos dez anos da chegada dos Kirchners ao poder. Para boa parte dos argentinos e, certamente, para a grande maioria dos produtores rurais, no entanto, a festa, se simbolizar alguma coisa, sintetizará uma década perdida.

O Estado de S.Paulo

25 Maio 2013 | 02h04

A produção e as exportações de itens que, no passado recente, caracterizaram a pujança da agroindústria argentina estão em queda, há desânimo no campo e os agricultores lamentam a perda da oportunidade aberta no mercado internacional aos exportadores de commodities, com o alto preço desses itens. Mesmo que, daqui para a frente - numa inesperada e improvável correção de suas políticas nocivas para o setor produtivo e punitivas para os consumidores -, o governo Kirchner faça as coisas certas e libere as exportações, as vantagens para o país serão bem menores do que poderiam ter sido: os preços das commodities estão em queda.

Os problemas para a agricultura argentina começaram no governo de Néstor Kirchner (2003-2007). Sua sucessora e esposa, Cristina Kirchner, que está no segundo mandato presidencial, criou outros e, por causa do estrito controle exercido pelo secretário de Comércio Interior de seu governo, Guillermo Moreno, vem tornando ainda mais difícil a produção e, sobretudo, as exportações. Embora pareçam surpreendentes, os dados recentes sobre a notável perda de importância da agricultura argentina no cenário mundial são a consequência inevitável da política kirchnerista.

A Argentina é historicamente conhecida como importante produtor de carne bovina, pela qualidade de seu produto e, sobretudo, pela condição de ser um dos principais fornecedores mundiais. Cada vez mais, porém, o estrangeiro que quiser provar a qualidade desse produto terá de fazê-lo em território argentino. A carne foi o primeiro produto a entrar na lista baixada pelo governo Kirchner (o presidente era Néstor, morto em 2010) de itens que teriam sua exportação controlada, sob o argumento de que era necessário "garantir a oferta doméstica e preços acessíveis".

Disso surgiram duas consequências. A carne tornou-se um dos alimentos básicos mais caros da dieta dos argentinos. E a Argentina, que chegou a ser o terceiro maior exportador de carne do mundo, hoje está na 11.ª posição e exporta menos do que o Uruguai e o Paraguai (o Brasil é o segundo maior exportador, atrás da Austrália).

Em 2005, a Argentina exportou 771 mil toneladas de carne; em 2012, apenas 183 mil toneladas. As vendas externas do produto são taxadas com um imposto adicional de 15%, chamado de retenção. Além disso, os frigoríficos dispõem de cotas de exportação rigidamente fixadas por Moreno e seu fornecimento para o mercado doméstico está sujeito a tabelamento.

Como resultado, os pecuaristas passaram a se dedicar a outras atividades, como a produção de soja, cuja exportação está sujeita a uma retenção maior (35%), mas não depende de cotas. O rebanho, de 57 milhões de cabeças em 2007, se reduziu para 48 milhões em 2010. Houve uma pequena recuperação nos dois últimos anos.

O país vem perdendo posições também nas exportações de outros produtos, como leite e trigo. O problema tornou-se crítico no caso das exportações da área de energia. Em 2011, a Argentina tornou-se o quarto maior exportador mundial de biodiesel, mas, desde o ano passado, enfrenta crise nessa área. A produção no primeiro trimestre deste ano foi 39,8% menor do que a de igual período de 2012, enquanto as exportações diminuíram 51,2%.

É a consequência do gesto populista de maio de 2012, quando o governo Kirchner estatizou as ações que a espanhola Repsol detinha na petrolífera YPF. Em represália, a Espanha suspendeu as importações do biodiesel argentino. E a Espanha é a principal porta de acesso do produto à União Europeia, que absorvia 75% das exportações do biodiesel argentino.

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