Os números e a pirotecnia

O balanço de mais da metade do governo do prefeito Fernando Haddad, feito um ano e meio antes de seu término, confirma todas as avaliações pessimistas sobre o seu desempenho. E como os dados desanimadores sobre as metas por ele fixadas são oficiais, divulgados pela Secretaria Municipal de Comunicação, não se pode dizer que isso é invenção da oposição ou produto de uma delirante conspiração dos meios de comunicação, que os governos petistas inventaram como desculpa tanto para seus fracassos como para seus malfeitos.

O Estado de S. Paulo

10 Julho 2015 | 03h00

O governo Haddad, desde o início apresentado como uma das vitrines do PT, está longe, muito longe de corresponder ao que dele se esperava. Contam nesse caso igualmente a quantidade e a qualidade. Tanto os números que indicam o cumprimento de apenas 32 das 123 metas – uma de quatro – como o fato de o desempenho mais pífio se concentrar justamente em áreas de importância decisiva como saúde e educação, ou seja, aquelas que constituem o cerne do “social”, com o qual Haddad e seu partido enchem a boca.

Muito poucas das 13 metas fixadas para essas 2 áreas foram alcançadas. Uma delas foi a implementação de 31 polos da Universidade Aberta do Brasil. Mas no ensino fundamental, que deve merecer atenção especial dos administradores, como não se cansam de advertir os especialistas na questão, não houve avanço significativo. Na pré-escola também o resultado obtido é sofrível – só 32 creches foram entregues e outras 36 estão em obras, sendo muito difícil que o total de 243 seja atingido. Quanto aos Centros Educacionais Unificados (CEUs), dos 20 prometidos só 1, em Heliópolis, na zona sul, foi entregue até agora.

Na saúde, o marasmo é semelhante. Dois de três hospitais prometidos – um em Parelheiros, na zona sul, e outro em Brasilândia, na zona norte – tiveram as obras começadas este ano e devem ser concluídas no próximo governo. Das 43 Unidades Básicas de Saúde (UBSs), 4 ficaram prontas. Das 25 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), 2 foram entregues e a construção de outras 13 foi iniciada em abril deste ano.

Enquanto setores vitais como esses patinavam – e continuam no mesmo passo –, o prefeito voltava sua atenção para o transporte, onde 8 dos 11 compromissos assumidos já foram cumpridos ou apresentam índice de execução superior a 50%. Como essa também é uma área de grande importância, Haddad teria pelo menos um ponto de peso a seu favor. Doce engano. Ele avançou, sim, mas não na melhor direção, porque suas ações e obras foram mais vistosas do que realmente úteis para melhorar de fato a mobilidade urbana.

As faixas exclusivas para ônibus, cuja extensão inicialmente prevista era de 150 km, já atingiram 386 km e chegarão facilmente aos 400 km prometidos. Mas o barulho feito em torno delas – e também das ciclovias, que terão igualmente 400 km até o fim do atual governo – não corresponde ao resultado obtido. A velocidade média dos ônibus, segundo dados oficiais, caiu nos horários de pico da manhã e da tarde, no ano passado, e voltou ao que era antes da implantação das faixas, que vem sendo feita às carreiras, sem estudos técnicos e planejamento. Ou seja, não colaboraram nada para melhorar o serviço de ônibus como um todo.

Mas não se pode negar que Haddad tem sabido usar espertamente as faixas e as ciclovias – essas na maioria entregues às moscas por falta de usuários – para se manter em evidência, com a alegação demagógica de que ambas se enquadram numa “revolução” nos transportes da cidade. A única obra – cara, mas realmente importante – prometida por ele para melhorar o serviço de ônibus, os corredores destinados a esses veículos, está atrasada. Dos 150 km prometidos, só 37,9 km estão com as obras em andamento. O atraso se explica porque os projetos, mal feitos, sofreram restrições por parte do Tribunal de Contas do Município.

O prefeito é bom de pirotecnia, mas ruim de administração. Felizmente, a ilusão do fogo de artifício dura pouco, como mostram os números levantados por seu próprio governo.

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