Os riscos do pré-sal

Se tudo der certo, daqui a nove anos o pré-sal estará produzindo 2,7 milhões de barris por dia, volume correspondente ao que a Petrobrás produz hoje, 54 anos depois de sua criação, e que só foi alcançado porque sua produção cresce ao ritmo de 10% ao ano desde o início da década de 1980. Seria algo como cinco décadas e meia em menos de uma, se confirmada a previsão feita pelo presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, ao participar do seminário Os Novos Desafios do Pré-Sal promovido pelo Grupo Estado e pelo Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial na terça-feira. Tantos, porém, foram os obstáculos ao êxito do projeto apontados por outros participantes do seminário que a previsão deve ser vista com muita cautela.

, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2011 | 00h00

O risco mais evidente decorre da magnitude do empreendimento, que ficou clara na série de artigos do diretor do Instituto Fernand Braudel, Norman Gall, publicada pelo Estado no primeiro semestre, e poderá exigir investimentos agora estimados em cerca de US$ 1 trilhão. Haverá disponibilidade de recursos, mas eles dependerão da viabilidade econômica dos campos do pré-sal, como advertiu o analista do BTG Pactual Gustavo Gattass, um dos participantes do seminário. Como exemplo das incertezas que marcam as atividades de pesquisa e exploração de petróleo, comprometendo a rentabilidade do investimento, Gattass citou o Campo de Golfinho, que deveria alcançar a produção de 300 mil barris/dia, mas hoje produz apenas 10% disso.

É claro que os resultados de cada campo só serão conhecidos quando eles estiverem operando. Se a produtividade dos poços do pré-sal for alta, o custo de produção por barril poderá ser pouco superior a US$ 30, o que assegurará excelente margem de lucro. Mas, se for baixa, o custo poderá superar US$ 70 o barril, reduzindo dramaticamente o retorno do investimento - o que afastará futuros investidores.

Outro problema que ameaça a execução do programa do pré-sal no ritmo previsto pela Petrobrás já afeta os projetos atuais e se agravará à medida que outros projetos avançarem. Gabrielli admitiu, em entrevista ao Estado, que a falta de equipamentos - já encomendados, mas cuja entrega no prazo está ameaçada pelos gargalos das indústrias - pode comprometer os investimentos da empresa programados para este ano, e que, no Plano de Negócios aprovado no mês passado, foram reduzidos dos R$ 93 bilhões inicialmente projetados para R$ 84,7 bilhões.

Se seguidas à risca as regras de conteúdo nacional dos equipamentos a serem empregados na exploração do pré-sal, a demanda da Petrobrás por sondas de perfuração, plataformas de produção e barcos de apoio e produção dificilmente será atendida. Mesmo que o seja, há a questão do custo: a indústria nacional terá condições de produzir a um custo compatível com a média internacional ou a Petrobrás terá de arcar com gastos adicionais apenas para atender à exigência de conteúdo nacional?

O analista Gustavo Gattass observou que, para atingir a produção prevista, a Petrobrás terá de instalar 54 novos sistemas de produção até 2020, mas o ritmo da indústria local e a falta de espaços para fazer a integração das plataformas no País, para cumprir a exigência de conteúdo nacional, poderão retardar o projeto. Gattass sugeriu que, para reduzir o impacto dessa exigência nas encomendas para o pré-sal, a Petrobrás encomende no exterior os equipamentos para o desenvolvimento das áreas adquiridas nos leilões da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), pois, para essas áreas, não há a exigência de nacionalização.

Reforçando o otimismo de Gabrielli sobre o potencial do pré-sal, a diretora da ANP Magda Chambriard disse que, numa projeção conservadora, o volume de reservas equivalentes de petróleo dessa área pode alcançar 50 bilhões de barris, ou 3,5 vezes todas as reservas provadas do País, de 14 bilhões de barris, incluindo as do pré-sal.

Tudo isso, no entanto, só começará a se tornar riqueza real para os brasileiros quando forem resolvidos os grandes problemas técnicos, financeiros e estruturais, muitos apontados no seminário e para os quais ainda não foi encontrada solução.

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