Os trabalhadores que voltam

Com a crise econômico-financeira internacional, milhares de brasileiros que deixaram o País em busca de melhores oportunidades no exterior estão voltando para casa. Não existem estatísticas disponíveis sobre o retorno de emigrantes brasileiros nos últimos anos, cujo total até há pouco era estimado em 5 milhões. Há, porém, um dado ilustrativo. O saldo das remessas pessoais de emigrantes, contabilizadas no item Transferências Unilaterais do balanço de pagamentos, foi de US$ 3,263 bilhões em 2009, um decréscimo de 22,75% em relação ao ano anterior (US$ 4,224 bilhões), segundo o Banco Central. Em janeiro deste ano, talvez ainda por causa do Natal, o recuo foi menos acentuado: ingresso de US$ 278 milhões, menos 11,46% em relação ao mesmo mês do ano passado (US$ 314 milhões).

, O Estadao de S.Paulo

23 Março 2010 | 00h00

Menos ingressos nessa conta podem significar menos brasileiros trabalhando lá fora. Mas isso não acarreta perdas irreparáveis para o País. O Brasil está muito longe de depender de remessas pessoais, como acontece com países centro-americanos, para os quais essa conta é quase tão importante quanto a das exportações. Por outro lado, o Brasil ganha em capital humano com a volta de um bom contingente desses compatriotas. Com o mercado de trabalho interno em expansão e com a falta de mão de obra especializada, trabalhadores brasileiros que foram para o exterior podem dar uma valiosa contribuição para o desenvolvimento do País.

Em certa medida, tem havido fuga de cérebros em vista da remuneração mais atraente, do equipamento técnico e das melhores condições de trabalho oferecidas no exterior a pesquisadores e cientistas formados por universidades do Brasil. Contudo, a grande massa dos que saíram para trabalhar em outros países é de pessoas com formação média, que não via no País meios para melhorar de vida.

Os dekasseguis, por exemplo, descendentes de japoneses que emigraram em grande número para o Japão, são considerados trabalhadores de baixa qualificação, empregados em trabalhos braçais. Mas nem sempre.

Como mostrou reportagem do Estado (15/3), 82 experientes soldadores nisseis, treinados em indústrias nipônicas, retornaram ao Brasil, sendo contratados por um estaleiro instalado no Porto de Suape (PE). Como os integrantes desse grupo relatam, eles lutaram no Japão contra preconceitos, mas conseguiram empregos industriais, embora, por serem estrangeiros, sua ascensão profissional fosse barrada. Mas aprenderam muito, inclusive em termos de ética de trabalho, que, como diz um deles, é mais importante que a técnica.

Centenas de outros trabalhadores estão retornando dos EUA e de países da Europa. Sendo estrangeiros naqueles países, tenham ou não visto para trabalhar, são os primeiros a serem cortados em períodos de retração econômica.

Grande número desses trabalhadores ganhou a vida no setor de serviços e teve de aprender línguas estrangeiras. Além da prática adquirida, isso os torna mais habilitados a ocupar postos em restaurantes, hotéis, resorts, agências de turismo, transportadoras, etc., empresas de setores que estão em franca expansão no Brasil.

Há ainda aqueles que, contratados por multinacionais para trabalhar em outros países, fizeram cursos ou treinamento no exterior, estando agora de volta ao Brasil. Essa situação, por sinal, é bastante comum na área de Tecnologia da Informação (TI).

Um terceiro grupo é o daqueles que foram para o exterior dispostos a pegar no pesado, exercendo atividades em períodos noturnos, mais bem remuneradas, para fazer um pé de meia. Com a poupança amealhada, seu objetivo é de se estabelecer por conta própria no Brasil, na cidade ou no campo.

Assim, o Brasil, que lucrou com as remessas financeiras desses trabalhadores enquanto estavam no exterior, lucrará também com o retorno de pessoas mais bem preparadas, imbuídas da ética do trabalho, que vêm preencher vagas nas empresas ou fortalecer o empreendedorismo.

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