Para evitar nova crise de água

Com chuvas que demoraram, mas foram abundantes - e sobretudo com medidas duras e eficazes adotadas para reduzir o consumo, além de maior transparência para tratar o assunto, como mostra reportagem do Estado -, São Paulo parece ter atravessado a fase mais crítica da escassez de água, como consequência da maior seca dos últimos 84 anos. Embora novas restrições ao consumo não devam ser descartadas, tudo indica que se ganhou algum tempo para contornar a crise e tentar evitar sua repetição.

O Estado de S.Paulo

28 Abril 2015 | 02h05

Tanto pelo aprofundamento das medidas que já vinham sendo tomadas para enfrentar o problema como pela maneira franca e direta de expor a verdadeira e difícil situação, em especial a da capital e da Grande São Paulo, a atuação do novo secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Benedito Braga, e de Jerson Kelman, presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) - técnicos renomados, nomeados pelo governador Geraldo Alckmin, respectivamente em meados de dezembro e início de janeiro -, trouxe importantes mudanças cujos resultados já se fazem sentir.

"Tomaremos medidas duras, difíceis", anunciou Kelman logo depois de assumir seu cargo, com uma franqueza que foi bem aceita pela população. E completou depois, admitindo explicitamente o que já era sabido, isto é, a existência de um racionamento de fato: "Racionamento é algum tipo de restrição do uso de água. É claro que nós temos. Se nós reduzimos 30% da produção, tem alguma restrição. Agora, há várias formas de racionamento. Uma delas é o rodízio. Outra é a redução da pressão. Nós não estamos em rodízio, que é muito pior do que o que fazemos hoje".

A forma mais dura de rodízio, aventada como hipótese para enfrentar a situação, se ela continuasse a piorar - quatro dias sem água para dois com água -, traria de fato sofrimento muito maior para a população, comparado com o das restrições em vigor, por piores que sejam os incômodos que elas acarretem. As chuvas e o rigor mantido pelas autoridades para reduzir o consumo afastaram, pelo menos por enquanto, o rodízio.

Seria de todo conveniente que o governo aproveitasse essa trégua para tomar as providências que se impõem para prevenir uma nova crise ou, pelo menos - já que um de seus elementos, as chuvas, escapa a seu controle -, tentar limitar os seu efeitos. A primeira delas, que ataca a raiz do problema, é cumprir rigorosamente o programa de obras emergenciais, destinadas ao mesmo tempo a aumentar a oferta de água e a aproveitá-la da melhor maneira possível. Um exemplo é o projeto da Sabesp para ampliar em 36% a captação de água prevista no futuro Sistema São Lourenço, que há um ano está em construção no Vale do Ribeira, obra orçada em R$ 2,2 bilhões e executada por meio de Parceria Público-Privada (PPP). Esse acréscimo permitirá tirar mais 500 mil pessoas da cobertura do Sistema Cantareira e facilitar a sua recuperação.

Outras medidas complementares poderão, juntas, exercer um papel importante. Entre elas está a de reduzir as perdas de água do sistema da Sabesp, um esforço no qual ela está empenhada há anos. É preciso redobrá-lo, porque as perdas em São Paulo, de 24,4%, são muito elevadas pelos padrões internacionais. É bem mais barato investir na diminuição de perdas do que no aumento da oferta.

Outro ponto no qual também estamos em má posição com relação a outros países é o de reúso de água, ou seja, o tratamento de água já utilizada para o seu reaproveitamento principalmente pela indústria. Os progressos nesse setor são tão grandes que já é possível até mesmo, embora em níveis ainda limitados, o reaproveitamento para consumo humano.

Finalmente, um efeito benéfico da crise, se se pode dizer assim, é a disposição mostrada pela população para economizar água como forma de evitar o sacrifício do racionamento. Essa é uma tendência que precisa ser incentivada por campanhas de esclarecimento - a água será cada vez mais um bem raro, ou pelo menos não abundante como antes - e por estímulos materiais, como o sistema de descontos criado, que deveria se tornar permanente.

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