Para o PT resta um dilema

A única coisa que parece certa em relação aos petistas é que será praticamente impossível sua bancada de 58 deputados tomar uma decisão unânime sobre a sucessão de Rodrigo Maia

O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2017 | 03h00

A dura realidade dos fatos, resumida na surra que levou no pleito municipal de outubro, convenceu os petistas de que é hora de fazer alguma coisa para garantir a sobrevivência do partido, que por algum tempo foi considerado hegemônico num País iludido pelas promessas do populismo irresponsável de Lula. Mas os petistas não conseguem chegar a um acordo sobre o rumo a seguir. Depois de mais de 13 anos desfrutando das regalias do poder, há uma forte tendência da liderança partidária a se compor com as forças dominantes no Congresso, sob a desculpa de que é preciso garantir postos, no Senado e na Câmara, que permitam atuar em defesa dos “interesses populares”. E, de quebra, socorram companheiros hoje desempregados. Por outro lado, há forte reação da militância e das lideranças “ideológicas” contra a possibilidade de aliança com os “golpistas” que depuseram Dilma Rousseff. Entre a perspectiva pragmática do salve-se quem puder e a coerência com os princípios ideológicos de um partido “dos trabalhadores”, o PT vagueia ao sabor dos ventos de suas próprias contradições.

Pouco mais de uma semana atrás, em ato preparatório de seu 6.º Congresso Nacional, a direção do PT aprovou por 45 votos a 30 a liberação de suas bancadas no Congresso para “dialogar” com os candidatos da base governista – os “golpistas”, portanto – tendo em vista garantir o acesso a cargos nas futuras Mesas das duas Casas do Congresso. Lula participou do encontro, defendendo a tese vitoriosa, como de hábito. No último fim de semana, contudo, pressionado pela militância, o presidente Rui Falcão mudou de ideia, conforme artigo divulgado no site do partido: “Minha opinião pessoal é que nos unamos aos parlamentares da oposição (PDT, PCdoB, Rede e PSOL), num bloco a ser encabeçado por alguém deste campo”. 

Pelo menos no caso da Câmara, portanto, na hipótese de que os deputados petistas concordem com a “opinião pessoal” de Falcão, até segunda ordem vigorará o que “a militância” exige: o PT permanecerá na oposição. Para decepção dos que alegam que para fazer oposição de fato o PT precisaria ocupar cargos nas Mesas e no comando das comissões parlamentares, se não se compuser com Eunício de Oliveira (PMDB-CE) no Senado e Rodrigo Maia (DEM-RJ) na Câmara, só restarão aos parlamentares do partido as tribunas dos plenários e das comissões no Congresso, que são na verdade o lugar mais apropriado para o exercício da oposição. 

De qualquer modo, existe a possibilidade de, para marcar posição, o PT lançar candidatura própria, pelo menos na Câmara: a do deputado Paulo Teixeira (SP). A alternativa seria apoiar o candidato já lançado pelo PDT, André Figueiredo (CE). E nos últimos dias passou a ser aventada na bancada petista também a possibilidade de valer-se do Regimento da Casa para judicializar a questão. Diz o Regimento que as maiores bancadas têm “assegurada” a participação na Mesa. É difícil, no entanto, que esse argumento prevaleça no Supremo Tribunal Federal (STF), que em caso semelhante relativo ao Senado considerou tratar-se de questão interna corporis do Legislativo. 

A única coisa que parece certa em relação aos petistas é que será praticamente impossível sua bancada de 58 deputados, a segunda maior da Câmara, tomar uma decisão unânime sobre a sucessão do deputado Rodrigo Maia. Afirma o líder do partido na Câmara, Carlos Zarattini (SP): “A bancada está muito dividida, mas não abrimos mão de lutar por espaço na Mesa”. Lutarão principalmente entre si mesmos.

Em relação à eleição do presidente do Senado, do ponto de vista do PT a questão parece bem mais tranquila. O candidato praticamente único, Eunício de Oliveira, tem conseguido levar com discrição os entendimentos para a composição da Mesa – na qual hoje o primeiro vice-presidente é Jorge Viana (PT-AC) – e muito provavelmente o PT não ficará de fora, independentemente do que possa pensar sua militância. É exatamente o mesmo que acontece na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde os petistas apoiam o tucano Cauê Macris para a presidência no pleito de 15 de março. Para o PT, como se nota, coerência é uma coisa muito relativa.

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