Parceria para o País

Um bom negócio, dizem os americanos numa platitude bem formulada, só será um bom negócio quando for um bom negócio para todos os envolvidos no negócio. No caso das parcerias anunciadas ontem no Palácio dos Bandeirantes pela presidente Dilma Rousseff e o governador Geraldo Alckmin, pode-se ir além. O "negócio" beneficia não apenas os seus participantes diretos, mas também os entes federativos que eles encarnam, a União e o Estado de São Paulo, e ainda a economia nacional - desde que, naturalmente, saia do papel.

, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2011 | 00h00

Serão também benéficos para contingentes da população paulista a unificação do programa social do Estado com o Bolsa-Família, anunciada semanas atrás, e o futuro acordo pelo qual São Paulo complementará com até R$ 20 mil por unidade o teto de financiamento do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, fixado em R$ 65 mil. Calcula-se que o acréscimo poderá favorecer pelo menos 70 mil famílias. Sem falar nas dificuldades por que passa o programa com o encarecimento dos lotes disponíveis para edificação - e que já não se distinguem pela abundância.

Foi nos Bandeirantes, sintomaticamente, que Dilma lançou a versão do Brasil sem Miséria para a Região Sudeste, na presença dos quatro governadores da área - nenhum deles petista - e do ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso. (Dizem que auxiliares de Dilma sentem inveja do trato afável que ela lhe dispensa.)

Já ontem, as iniciativas em pauta, que somam na ponta do lápis algo como R$ 72 bilhões, se referem a investimentos no eixo norte do Rodoanel, na Hidrovia Tietê-Paraná e para o início do mais do que urgente projeto do Ferroanel, no entorno da capital, em estudos desde a década de 1990.

Além disso - e de importância crucial para o governo paulista - foi levada à mesa a ampliação do limite do endividamento do Estado para R$ 17 bilhões, até 2013. O assunto vem sendo tratado por Alckmin com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Essas negociações todas têm sido possíveis porque os respectivos interlocutores deixaram de lado as filiações partidárias e, mais ainda, os ressentimentos que envenenam as relações entre o PSDB, carro-chefe da oposição ao Planalto, e o PT, aboletado no poder. Em contraste com esse clima de "quatro pedras em cada mão" com que se confrontam no Congresso, e não raro diante do nariz torcido de seus correligionários, Dilma e Alckmin desenvolvem uma relação civilizadíssima - e, presumivelmente, produtiva.

Políticos que são (uma aprendiz, outro veterano), nem todos os motivos de cada qual para assim se conduzir brotam, imaculados, do compromisso com o interesse público. Mas os cálculos próprios ou partidários de conveniência são a última coisa que merece ser invocada nas circunstâncias. Porque, objetivamente, a parceria Dilma-Alckmin, além de significar uma decisão inteligente para ambos, propagará suas consequências para além do espaço federativo em que se manifesta. A expansão do Rodoanel e a implantação do Ferroanel são medidas que incidem diretamente sobre o mal-afamado "custo Brasil" que a arcaica infraestrutura cobra da economia nacional.

Tamanhos são os nós logísticos que o Ferroanel deverá desatar que é um absurdo a obra tardar tanto. As travas ao transporte de passageiros na região metropolitana de São Paulo e de carga para o Porto de Santos representam o maior gargalo ferroviário do País. Para se ter ideia, o futuro arco de trilhos contornando a capital multiplicará por quase 20 vezes o atual número de contêineres despachados a Santos por via férrea (80 mil por ano, ante um total de 2,5 milhões). E 5 mil caminhões por dia deixarão de circular na cidade de São Paulo.

Boa parte da demora em resgatar o Ferroanel deve ser debitada ao pensar pequeno e aos projetos eleitorais antagônicos do presidente Lula e do governador Serra, que contaminaram a discussão técnica do assunto, sobretudo no tocante ao financiamento da empreitada.

Essas questões ainda terão de ser debulhadas, mas o essencial é que a decisão política de levá-la adiante foi tomada. E, melhor ainda, no bojo de um pacote de parcerias administrativas, o que reforça as suas chances de se concretizar.

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