Patrimônio cultural em risco

Servidores do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), ligado ao Ministério da Cultura (MinC), anunciaram que entrarão em greve hoje. A organização do movimento grevista informa que, com a decisão, grande parte dos 30 museus subordinados ao órgão poderá não ser aberta ao público em junho e julho, meses da Copa do Mundo. Os servidores acusam o governo federal de não cumprir uma pauta de negociações acertada entre as partes nos anos anteriores, tais como plano de cargos, titulação e gratificações. O Ministério do Planejamento, porém, argumenta que o momento de negociar com todos os servidores federais ocorreu em 2012 e só ficou faltando uma categoria da Polícia Federal (PF). Na negociação, segundo as autoridades, os servidores aceitaram um reajuste escalonado de 5% em 2012, 5% em 2013 e 5% este ano. A paralisação dos funcionários do MinC no Rio de Janeiro, porém, já começou e, de acordo com os grevistas, prejudica o funcionamento de 18 museus, institutos e até escritórios do Ministério.

O Estado de S.Paulo

15 Maio 2014 | 02h10

Os problemas do Ibram, contudo, estão longe de se limitar a salários e planos de carreira. Algumas das instituições mais tradicionais subordinadas ao órgão federal passam por dificuldades graves que afetam instalações e acervos e causam reclamações tanto dos encarregados quanto dos visitantes. Um dos mais visitados do Brasil, o Museu Imperial de Petrópolis, é uma delas.

Falta ar-condicionado no prédio centenário da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), na Cinelândia, no Rio. Sua fachada está deteriorada e seus frequentadores são forçados a conviver com gambiarras elétricas, além de rachaduras em paredes e em pisos. Criada há 200 anos por d. João VI com parte do acervo da família real trazido de Portugal na fuga da Corte para o Brasil, a instituição é um exemplo dramático de como as entidades culturais federais passam por uma crise que só se agrava com o correr do tempo.

Toda biblioteca pública no mundo aumenta sua coleção com novos lançamentos, pois só assim consegue atender à demanda de um público interessado em leitura. Em cumprimento de uma obrigação legal, a FBN recebe 100 mil volumes por ano - toda a produção impressa no País. Não há onde acomodá-la. As publicações destinadas à hemeroteca, instalada num prédio na zona portuária, estão sendo encaixotadas. Não há mais como abrigar novas publicações. Na gestão de Moniz Sodré durante a passagem de Gilberto Gil no Ministério, a instituição conseguiu R$ 30 milhões a fundo perdido para reformar o edifício do Porto e a fachada da Cinelândia. Até hoje, contudo, esse dinheiro não foi gasto. E a valiosa coleção de livros raros continua exposta a goteiras, incêndios e furtos.

Outra biblioteca, também chamada de Nacional, fica em Brasília. Mas não há como usar o prédio projetado por Niemeyer, primeiro porque se esqueceram de fazer escadas e depois porque os cobogós da fachada permitem a entrada da luz solar, o que impede a conservação dos livros. Quem quiser ler algo em suas dependências constatará novamente o espanto do escritor Mário Araújo: "A Biblioteca Nacional de Brasília, quase cinco anos após sua inauguração, simplesmente não tinha livros".

A crise das instituições culturais sustentadas por dinheiro público, contudo, não se limita à guarda de livros. Fundada em 1956 e responsável por preservar e difundir o acervo audiovisual do País, a Cinemateca Brasileira, na Vila Mariana, em São Paulo, guarda mais de 30 mil títulos. A instituição, que deve sua sobrevivência à pertinácia do cineasta Rudá de Andrade, filho do poeta modernista Oswald de Andrade, contudo, está em petição de miséria. Depois da morte de Rudá, em 2009, a instituição passou a servir de cenário para uma guerra de acusações entre grupos inimigos disputando seu controle. No final das contas, os planos de trabalho da Cinemateca, que empregavam 246 pessoas, são hoje geridos por 47. Diante desse esvaziamento, Carlos Augusto Calil, professor da USP, alertou para a possibilidade de ela fechar suas portas definitivamente.

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