Pega, mata, esfola

Deixemos nossa triste condição de aldeões que nem o passado recente guardam na memória

*Bolívar Lamounier, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2017 | 03h07

“...naquela comunidade, o passado raramente era discutido. Não que fosse um tabu, mas ele havia de algum modo sumido em meio a uma névoa tão densa quanto a que cobria os pântanos. Simplesmente não ocorria àqueles aldeões pensar sobre o passado – nem mesmo o recente” Kazuo Ishiguro, em O Gigante Enterrado

Participo diariamente da discussão política pelas redes sociais. No momento, estou com um período de 740 dias ininterruptos de postagens. Pratico essa atividade por considerá-la potencialmente útil à sociedade e porque aprendo muita coisa por meio dela.

Mas devo confessar que não é fácil. É preciso paciência para aguentar a infindável repetição de certos chavões e casca grossa para responder à altura a certas grosserias que vez por outra aparecem. A um ano da eleição presidencial, é fácil perceber o aumento do que se tem chamado de atitude “antipolítica”: uma hostilidade indiscriminada contra tudo e todos, contra as instituições – no limite, contra a própria democracia. O aumento no número de postagens e comentários agressivos é facilmente perceptível. Atitudes do tipo “pega, mata, esfola” parecem estar contaminando as redes a olhos vistos. E junto com elas, vários chavões, entre os quais eu destaco o de que “os partidos são todos iguais”. Minha proposta neste artigo é explorar esses dois pontos, referindo-me em especial ao caso do PSDB.

O “pega, mata, esfola” veio à tona com inusitada virulência em razão da fala de Aécio Neves na gravação de Joesley Batista. O fato é bem conhecido: em linguagem chula, Aécio pede a Joesley um empréstimo de R$ 2 milhões, supostamente para pagar advogados de defesa no âmbito da Operação Lava Jato. Foi afastado do Senado pelo ministro Fachin, mas o ministro Marco Aurélio devolveu a questão ao plenário do Senado, que lhe restituiu o mandato. A reação das redes contra Aécio foi imediata. Centenas de postagens passaram a exigir que o Senado lhe cassasse o mandato, que o PSDB o excluísse de seus quadros e – bingo! - que a Justiça o metesse no xadrez.

Do ponto de vista jurídico, quanto eu saiba, o Brasil ainda é um Estado constitucional. Todo indivíduo tem direito ao devido processo legal. Ora, até o momento em que escrevo Aécio Neves foi acusado pela Procuradoria Geral da República; enquanto a Justiça não aceitar a acusação, ele não é sequer réu. Quanto o for, terá direito a ampla defesa e ao contraditório. Mas, claro, a questão tem profundas repercussões políticas. Isso é outra coisa.

Como presidente do partido, é óbvio que ele não se iria autoexpulsar; tampouco quis Tasso Jereissati, que lhe sucedeu como presidente interino, chegar a essa providência extrema.

Afastado por Aécio, Jereissati lançou-se candidato à presidência do partido, o mesmo fazendo o governador de Goiás, Marconi Perillo, aliado de Aécio. Para desatar esse nó o tucanato convocou Alberto Goldman para atuar como um tertius, assumindo interinamente a presidência do PSDB até a eleição, já articulada, de um presidente definitivo, que será o governador paulista Geraldo Alckmin. No campo das expectativas, penso que Goldman e Alckmin tampouco chegarão a propor a saída de Aécio.

Mas que fique bem claro: como adepto do PSDB, o desfecho de minha preferência não seria esse. Para mim, a gravidade da falta cometida por Aécio é indiscutível e está causando um dano muito sério ao partido. O correto, a meu ver, seria ele se inspirar em Henrique Hargreaves, ministro do governo Itamar Franco, que se afastou do cargo até que uma acusação contra ele fosse esclarecida. Vou mais longe. Tendo em conta sua estatura política de parlamentar por muitos anos, ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência da República em 2014, penso que Aécio deveria autoimpor-se um ostracismo de pelo menos quatro anos, abstendo-se de participar da política até sua situação ser resolvida no âmbito da Justiça. E para recompor a sua biografia, gravemente arranhada no episódio com Joesley.

O que acima expus me permite passar ao segundo ponto: o chavão de que “todos os partidos são iguais”. No terreno da corrupção, tal afirmação é ridícula. A mácula que atingiu o PSDB foi obra de um indivíduo – Aécio Neves. A que atingiu o PT, o PMDB e o PP foi uma esquema de corrupção sistêmica de dimensões amazônicas. O próprio Lula, presidente e eterno candidato do PT, já está condenado a nove anos de prisão e enfrentará ainda uma meia dúzia de processos. O conluio dos três partidos citados com o cartel das empreiteiras no assalto à Petrobrás com certeza renderá milhares de páginas em compêndios universitários sobre o fenômeno da corrupção.

“Todos são iguais”: quer-se talvez dizer que, além da corrupção, os partidos são igualmente ocos do ponto de vista programático, igualmente incompetentes e irresponsáveis? Neste ponto eu posso me considerar insuspeito, pois estou entre os mais duros críticos do tucanato no que tange à formulação de uma nova agenda, de uma plataforma mais audaciosa e liberal, voltada para o médio e o longo prazos. No terreno das ideias, da formulação de programas e políticas públicas, o PSDB esbanja quadros, enquanto o PT vem há quase 40 anos esbanjando chavões do tipo “um socialismo em construção”.

O governo Fernando Henrique estabilizou a economia após 33 anos seguidos de fortes ondas inflacionárias, reestruturou o sistema financeiro por meio do Proer e deu início à reforma do Estado, por exemplo, ao privatizar a telefonia, livrando-nos daquele passado canhestro em que tínhamos de incluir nosso telefone caseiro na declaração de bens do Imposto de Renda.

*Cientista político, é sócio-diretor da consultoria Augurium e membro das academias Paulista de Letras 

e Brasileira de Ciências

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