Pensando o impensável

Difícil sugerir algum caminho, quando Aécio se comporta como um coronel de priscas eras

*Bolívar Lamounier, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 03h11

São raros, em qualquer país, os momentos de real concórdia. Em geral, o que se tem é uma paz aceitável, e por vezes precária. As nações menos felizes passam por solavancos sérios e só com muito esforço conseguem evitar que novos solavancos lhes destruam por muito tempo a perspectiva da felicidade.

O que me deu coragem para encetar tal divagação foi a recuperação econômica, por enquanto tênue, e os prospectos algo mais animadores que vão ganhando corpo para 2018. Com os poderosos instrumentos de análise de que dispõem, os economistas são em média mais otimistas. Acreditam que a recuperação reaproxima os políticos, desarma os espíritos e repõe o país nos trilhos. Torço para que estejam certos, mas vejo certa utilidade em pensar o impensável. Imaginar, como exercício, que as raízes dos nossos problemas possam ser mais complexas e profundas.

Essas ideias soltas me vieram à mente como subproduto de uma reflexão sobre nossos últimos 25 anos, intercalada com premonições sobre os próximos cinco ou dez e com uma avaliação do estado atual dos nossos partidos políticos.

O governo Collor, os desacertos iniciais do governo Itamar Franco e a hiperinflação batendo às nossas portas poderiam ter sido um solavanco considerável. Mas conseguimos revertê-lo, e fizemos melhor, preparamos o terreno para reformas econômicas importantes e para uma alternância pacífica no governo: a ascensão de um ex-operário e de um partido ainda imbuído de certo ranço revolucionário. Se tivéssemos falhado naquele momento, é óbvio que a sequência previsível dos acontecimentos poderia ter sido extremamente grave. Teríamos, desde logo, um segundo solavanco – uma polarização política acirrada, com reflexos negativos na economia e assim sucessivamente. Isso não aconteceu lá atrás, mas aconteceu há coisa de três ou quatro anos, arrastando o País para a recessão e para uma forte elevação do desemprego.

Depois – e temo que esta seja a etapa em que agora nos encontramos –, uma situação de anomia, de desesperança e descrença generalizada. Reverter tal situação é possível, mas é mais difícil despolarizar do que polarizar. E depois da anomia, o que pode vir?

Ousando pensar o impensável, podemos imaginar que a anomia desarmada se arma, ou seja, que se transforma numa sociedade sem pontos confiáveis de poder, sem instituições efetivas, sem convergência no plano dos valores. Em permanente desordem, vale dizer, sem uma ordem normativa digna do nome. A isso se pode apropriadamente denominar pretorianismo.

Como foi que passamos da convergência dos anos 1990 para a polarização dos anos Lula e dela para a anomia dos anos Dilma e Temer? Permitam-me inserir aqui uma observação sobre o eleitorado tucano. Uma parte dele se deixou levar por uma raiva esdrúxula em relação a Fernando Henrique Cardoso, pondo a fermentar dentro do próprio PSDB um começo de anomia. Tal raiva adveio de uma percepção caolha da forma como ele conduziu a transição para o governo Lula. Os que a adotaram se enfureceram com a postura de Fernando Henrique quando da transição de governo. Seu jeito cortês e sorridente seria a “prova” de que ele teria traído José Serra e ali estava a festejar a vitória de seu “amigo de esquerda”. Não lhes passou (passa) pela cabeça que Fernando Henrique, como chefe de Estado, estava a descortinar um horizonte mais amplo, vendo com orgulho o nosso país realizar uma transição difícil, mas civilizada e ordeira.

Outra onda de rancor viria em 2005-2006. Sendo Palocci o ministro da Fazenda, o PSDB preocupou-se em preservar a normalidade econômica. Para a parcela enfurecida do tucanato, tratava-se de outra traição. Eram os dirigentes do partido expondo sua natureza “melancia”, verde por fora e vermelha por dentro. Correta, para tal parcela, seria uma postura do tipo olho por olho, dente por dente. Em 2003, marco zero de sua visão polarizadora, Lula cunhara a expressão “herança maldita” – a mais grosseira agressão de um presidente a seu antecessor em nossa História republicana. O “mensalão” seria a oportunidade de lhe dar o troco, rompendo-lhe a jugular.

No segundo mandato, Lula, se quisesse, ou se soubesse, poderia ter diluído a radicalização, mas essa, notoriamente, não era (não é) sua visão de política, nem combinaria com seu projeto de poder de longo prazo. O que ele fez, como sabemos, foi dobrar a meta: incumbiu Dilma Rousseff de tomar conta da cadeira até sua volta triunfal em 2014. Não percebeu que a sra. Rousseff nutria a ilusão de se tornar uma dama de ferro do nacional-desenvolvimentismo.

Alimentando-se de tal fantasia, ela produziu uma recessão de quase três anos. Para piorar as coisas, o escândalo da Petrobrás e a sem-cerimônia das empreiteiras atingiram em cheio os três principais partidos de sua base de sustentação: PT, PMDB e PP. Trescalando maus odores por toda parte em Brasília, a linha de defesa malandramente concebida por Lula – “somos todos iguais” – tornou-se realidade. A sociedade adotou-a como uma descrição fiel de nossa vida política – de todos os partidos e lideranças – e assim uma espessa camada de anomia se superpôs à latente polarização.

Como reverter tal situação?

Por ora temos um cronograma – as eleições de 2018 –, mas quase nada em termos de cenário, enredo e elenco. Engana-se quem supõe que esse nó possa ser desatado sem alguma convergência e uma participação razoável dos partidos políticos. Como operar tal milagre? Difícil sugerir algum caminho, até porque, por enquanto, o que vemos é o outrora presidenciável Aécio Neves se comportando como um coronel de priscas eras, querendo o PSDB apenas como um partido que possa chamar de seu.

*Cientista político, é sócio-diretor da Augurium Consultoria e membro das academias Paulista de Letras 

e Brasileira de Ciências

 

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