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Perdendo sustança

A crise brasileira vai muito além da produção em baixa, das lojas sem clientes e do desemprego em alta – fatos bastante graves, mesmo sem outras complicações, para espalhar insegurança entre consumidores e empresários, derrubar o prestígio do governo e deixar em alerta os mercados financeiros e de capitais. A mais longa e mais funda recessão em décadas, consequência de anos de más políticas, tem consumindo a musculatura da economia brasileira e continuará consumindo, certamente, se nenhum forte sinal de mudança aparecer nos próximos meses. Um dos efeitos possíveis foi anunciado por dirigentes da General Motors (GM): sem perspectiva de melhora, a empresa poderá abandonar seu plano de investimento de R$ 6,5 bilhões. Esse anúncio pode conter uma dose de pressão, mas seria tolice reduzi-lo a isso. Sem ameaça e sem pressão, a maioria dos empresários tem simplesmente deixado de comprar máquinas e equipamentos e de investir em instalações produtivas. Alguns estão procurando outros países para levar adiante seus negócios.

23 Fevereiro 2016 | 03h16

Como se diria no interior, o Brasil está perdendo sustança e vigor para reagir e retomar o crescimento. Consultas de brasileiros sobre investimentos nos Estados Unidos aumentaram 70% em um ano e chegaram a 7,6 mil em 2015, segundo a Câmara Americana de Comércio (Amcham), citada em reportagem do Estado. Também cresceu o número de consultas de possíveis investidores no Reino Unido. A aplicação de capitais em países latino-americanos vem crescendo há mais tempo, motivada pela busca de menores custos e, em muitos casos, de acesso mais fácil a mercados.

A redução do valor investido em máquinas, equipamentos e construções foi uma das grandes marcas do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, apesar das promessas de expansão e modernização da infraestrutura e de apoio ao fortalecimento industrial. A tendência de redução do potencial produtivo continuou no segundo mandato, como indicam todos os dados sobre produção e importação de bens de capital e sobre construções públicas e privadas.

Os números oficiais do Produto Interno Bruto (PIB) devem ser divulgados no começo de março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas já se pode ter uma boa ideia dos fatos com o Monitor do PIB da Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgado ontem. Segundo o Monitor, o PIB diminuiu 3,8% em 2015. É uma estimativa muito parecida com as de outras instituições nacionais e internacionais. Também de acordo com os cálculos da FGV, 7 das 12 atividades incluídas nessa contabilidade encolheram no ano passado, com destaque para as indústrias de transformação (-9,7%) e de construção (-8,9%).

Do lado da demanda, a maior queda foi a do investimento físico, também rotulado como formação bruta de capital fixo. O volume do investimento diminuiu 14,7%. O componente com pior resultado foi a procura de máquinas e equipamentos, com diminuição de 26,1%. A redução afetou tanto os produtores nacionais de bens de capital quanto os estrangeiros. A importação desse tipo de bem caiu 17,9%. Outro dos grandes componentes da demanda, o consumo das famílias, foi durante anos um dos principais pilares da economia, mas também diminuiu, embora muito menos. O recuo ficou em 3,5%, resultado explicável facilmente pela combinação de desemprego, inflação e encarecimento do crédito.

Parte importante da redução do investimento é atribuível a grandes empresas produtoras de commodities, como petróleo, minérios e aço. Isso se deve em parte à redução da demanda e dos preços internacionais, mas a contração do mercado interno foi mais importante na maior parte dos casos. O setor de aço, por exemplo, foi severamente afetado pelas crises da construção e da indústria de veículos e de máquinas. O caso da Petrobrás é especial. A queda dos preços internacionais foi um golpe a mais em uma empresa saqueada durante anos de politicalha e de irresponsabilidade.

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