Perigo nos preços da comida

Os preços da comida sobem no mercado internacional e continuarão pressionando o custo de vida por muitos meses, provavelmente durante a maior parte do próximo ano. A perspectiva é animadora para os agricultores, pecuaristas e exportadores de produtos agropecuários. Mas o governo deveria preocupar-se com o risco de mais inflação em 2011 e estudar, desde já, uma estratégia para atenuar os efeitos da valorização dos alimentos. Os sinais de alerta foram reforçados nessa quarta-feira pela FAO, o órgão das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura.

, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2010 | 00h00

O índice mensal de preços da FAO subiu 3,7% em novembro e atingiu o nível mais alto em 28 meses. Esse número é a média ponderada dos indicadores de cinco grupos de produtos - carnes, laticínios, cereais, óleos e gorduras e açúcar. No mês passado, ficou pouco abaixo dos valores observados em junho e julho de 2008, quando a última grande crise no mercado global de alimentos atingiu o pico.

Quando a crise financeira se espalhou, deixando em recessão boa parte do globo, os países mais pobres e dependentes da importação de alimentos já estavam em dificuldades, com muitos milhões de famílias sem condições de pagar pela alimentação. Desde 2007 o FMI já estava empenhado em programas de ajuda financeira aos países mais afetados pelo encarecimento da comida.

Houve uma breve trégua nos mercados, durante a pior fase da crise financeira, mas os preços voltaram a aumentar nos meses finais de 2009. Houve alguma oscilação neste ano e nos últimos cinco meses o índice médio da FAO subiu de forma ininterrupta. Entre junho e novembro o indicador variou 26,4%. As maiores altas foram do açúcar (66,6%), cereais (48,7%) e óleos (44,5%). Carnes (1,4%) e laticínios (2,3%) encareceram muito menos.

A produção foi afetada em alguns países pela seca prolongada. Foi o caso da Rússia, por exemplo. Em outros, inundações devastaram os campos. Limites impostos à exportação por alguns governos também pressionaram os preços.

Nunca chegou a haver escassez física no mercado global, mas a diminuição de algumas colheitas e a perspectiva de estoques menores provocaram a alta das cotações. Além disso, os mercados têm sido pressionados pela especulação financeira. Há dinheiro de sobra no mundo, por causa das políticas monetárias frouxas nos países mais desenvolvidos. Na Europa e nos Estados Unidos os juros continuam muito baixos. Além disso, o banco central americano continua emitindo um enorme volume de dólares. Na rodada atual, iniciada no mês passado, está prevista a emissão de US$ 600 bilhões até o meio de 2011.

Com dinheiro farto e barato circulando nos mercados financeiros, muita incerteza quanto ao crescimento nas maiores economias e muita insegurança em relação à dívida pública de vários governos, quem tem dinheiro corre atrás de aplicações consideradas seguras e promissoras. Parte desse capital vai para as economias emergentes, como o Brasil, e uma fatia considerável é aplicada nos mercados de produtos básicos.

A combinação de todos esses fatores pode manter pressionadas por vários meses as cotações dos produtos agrícolas. Os preços dos grãos permanecerão elevados e até poderão subir pelo menos até setembro de 2011, segundo o secretário do Grupo Intergovernamental para Grãos da FAO, Abdolreza Abbassian. Ele mostrou preocupação especialmente com a redução da área plantada com trigo de inverno na Rússia. Até meados de 2011 haverá incerteza sobre o volume da safra russa, observou.

No Brasil, como na maior parte dos países produtores, não há risco de escassez nem de choques importantes de oferta. Escassez de fato não ocorre há muitos anos no mercado brasileiro. Mas os preços tenderão a continuar elevados ou em alta, principalmente por causa do quadro internacional. Além de afetar o orçamento das famílias, o custo da alimentação poderá contaminar outros preços. Se isso ocorrer, a inflação ficará bem mais perigosa. Um dos desafios das autoridades monetárias será evitar ou limitar esse contágio.

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