Petróleo, gás e carvão só debaixo do solo e do mar?

Por onde caminhará a crise que envolve a Petrobrás, com as denúncias de escândalos e a queda de preços no mercado internacional? Nada será fácil nem simples. No momento em que são escritas estas linhas, é difícil de prever o rumo dos acontecimentos no plano político-administrativo. E mais ainda no plano internacional - que envolve os preços de mercado e as pressões crescentes na área do clima.

Washington Novaes, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2014 | 03h41

Analista do Swiss Invest, Anthony Peters diz (Estado, 12/12) que um "colapso dos preços do petróleo paira sobre os mercados". Vários países já sentem a crise em suas moedas. A Nigéria está em pânico, pois 80% de suas receitas orçamentárias provêm do petróleo. E na recente conferência em Lima, no Peru, vários especialistas afirmaram que 80% das atuais reservas de petróleo terão de permanecer inexploradas, para reduzir as emissões de poluentes e não acentuar as mudanças climáticas. A secretária-geral da Convenção do Clima, Christiana Figueres, acha indispensável que cada país estabeleça sua meta para reduzir emissões e se comprometa a cumpri-la. E que um acordo internacional seja firmado em 2015, para começar a vigorar em 2020 e assegurar que até o ano 2050 o aumento da temperatura da Terra - em consequência dessas emissões - não ultrapasse 2 graus Celsius (já subiu 0,8 grau). Mas só 7% das dezenas de empresas que operam com combustíveis fósseis acham que seus planos são compatíveis com esses objetivos (RTCC, 7/12).

Para surpresa de muitos delegados, o próprio secretário de Estado norte-americano, John Kerry, incitou em Lima os países participantes a deixar a área dos combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão), porque eles podem fortalecer a economia, mas "é preciso olhar para o caminho à frente" (Business and Financial News, 12/12). Não faltou quem lembrasse que os EUA pretendem implantar um oleoduto que leve o petróleo do Canadá para o Texas.

A Alemanha já planeja sair da área dos combustíveis fósseis (Bloomberg, 4/12) e intensificar a implantação de usinas eólicas e solares subsidiadas pelo governo. Pela primeira vez, a maior economia da Europa tem mais eletricidade gerada por fontes renováveis: 25% da energia total (nos EUA, 6,2%; na França, 4,8%). E o governo alemão quer chegar a 45% em 2025 e a 80% em 2050. Com preços mais baixos do que no carvão e no gás. Os consumidores já pagam sobretaxas (US$ 132 bilhões) para financiar a expansão.

Exxon Mobil, Chevron, Royal Dutch Shell e outras dizem, entretanto, que não estão preocupadas com "desinvestimentos" (The Sidney Morning Herald, 4/12). No sentido contrário, um painel de cientistas da Convenção do Clima lembra que o consumo dos fósseis pode se expandir até 2033, quando de 15% a 30% das reservas estariam consumidas; além daí, não. Mark Lewis, analista da Kepler Chevron, acha que, para a contenção das emissões poluentes permitir não ultrapassar 2 graus Celsius na temperatura, haverá uma perda de US$ 28 trilhões em duas décadas para empresas detentoras das reservas de combustíveis fósseis. Mesmo assim, diz ele, essas empresas não se sentem ameaçadas. E só 2 mil empresas nessa área significam um mercado de US$ 5 trilhões anuais.

Que influência terá tudo isso sobre os preços de produtos no mercado internacional - e na competição com os brasileiros? Muitas das maiores usinas alemãs já dizem que vão mudar das fontes poluidoras para as renováveis (The Sidney Morning Herald, 4/12). A mesma edição registra que, no Parlamento, um diretor do Bank of England disse haver pedido a seu staff que analise se perdas com reservas "encalhadas" de carvão, petróleo e gás podem afetar o banco, os investidores e o sistema financeiro - já que as reservas de fósseis são avaliadas em trilhões de dólares no mundo e não estão disponíveis tecnologias seguras que permitam sua continuidade. Storebrand, financeira da Escandinávia com US$ 74 bilhões em ativos, já registrou 35 empresas saindo da área, por se considerarem vulneráveis às exigências das políticas do clima. E, coroando tudo, Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, diz ser "absurdo pensar que todo o petróleo, o gás e o carvão serão consumidos".

A família Rockefeller parece lhe dar razão. Enriqueceu no mundo do petróleo, mas já está "desinvestindo" na área. Christiana Figueres pensa que "o mundo mudou com essa decisão da família". O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente calcula ser necessário investir US$ 1,6 trilhão por ano em renováveis. Calcula também que é preciso reduzir as atuais emissões anuais para 44 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, no máximo, em 2020.

São muitas complexidades. Os países grandes produtores de petróleo continuam reunidos na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que já assegurou (10/12) que a atual oferta, de 30 milhões de barris/dia, será mantida nesse nível. Mas, no Brasil, os preços internos estão acima dos internacionais - e antes da crise se pensava em reduzi-los.

Outra área complicada é a do fraturamento hidráulico de rochas no subsolo, no Brasil, para extrair petróleo e gás - caminho que os EUA trilham com intensidade. Mas o governo do Estado de Nova York suspendeu as fraturas, ante a preocupação com contaminação da água, poluição do ar e riscos para a saúde humana, decorrentes do retorno de água, areia e produtos químicos injetados no subsolo para retirar o gás e o petróleo.

E há ainda a questão do petróleo do pré-sal, que, segundo a Petrobrás, tem proporcionado 600 mil barris diários (ao todo, a produção brasileira hoje está em quase 3 milhões de barris diários, mas com os preços caindo de US$ 105 para cerca de US$ 60). Há, aqui, muitas polêmicas quanto às tecnologias de exploração. E também se pergunta se a Petrobrás aceitará parcerias, deixará de ser operadora única.

Enfim, é uma encruzilhada com ameaças em cada trilha de chegada. Mas sem indicação de novos caminhos.

Em viagem, não ocuparei este espaço na edição de 2 de janeiro.

* Jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

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