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PIB - 26 países superam Brasil na AL e no Caribe

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Roberto Macedo

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), da ONU, divulgou recentemente seu Estudo Econômico da América Latina e do Caribe - 2014 (www.cepal.org/publicaciones). É um denso e bem elaborado diagnóstico do que se passa com a economia da região.

Esse estudo merece maior divulgação, porque a economia brasileira passa por sérias dificuldades, espelhadas particularmente nas taxinhas de crescimento do seu produto interno bruto (PIB). Diante delas o governo do Brasil reage com escapismo, pois costuma atribuí-las à crise econômica da segunda metade da década passada, da qual economia mundial ainda se recupera. Despreza causas de sua própria lavra, embora se revele como o principal culpado.

Quanto a isso, um dos aspectos que enfatizo é o de que vários outros países também estão diante das sequelas dessa crise, mas se saem bem melhor que o Brasil. Examinando o estudo da Cepal vi que o número deles é muito maior do que imaginava, e são países mais próximos geográfica e culturalmente do nosso, alguns até mais expostos a movimentos da economia mundial.

Na página 59 um gráfico lista 33 países ordenados pelas taxas previstas em cada caso para a variação do seu PIB em 2014, da maior para a menor. Iniciei o exame da lista de cima para baixo, ansioso por achar o Brasil. Mas a quem for consultar a lista com o mesmo interesse sugiro começar de baixo para cima, pois só achei nosso país bem ao final, com 26 (!) outros mostrando taxas maiores. Menores só Dominica, Jamaica, Barbados, Argentina e Venezuela - que ostenta a única taxa negativa. Também é interessante notar que a previsão para o PIB brasileiro em 2014 (1,4%) é a mesma de Cuba - talvez essa "boa" companhia sirva de consolo à nossa presidente, notória admiradora do regime político cubano e de seus líderes.

Mais dois aspectos agravam a má posição brasileira. Numa tabela, apresentada na divulgação do estudo, aparecem individualmente as taxas anuais de variação do PIB observadas de 2011 a 2013, separando os países latino-americanos dos caribenhos. Para comparações usei a média aritmética dessas taxas em cada caso. Quanto aos 20 países da América Latina (AL), 18 (!) deles superaram a média alcançada do Brasil, que só ganha de El Salvador. No que toca aos 13 do Caribe, 10 apresentaram médias inferiores à do Brasil, mas entre eles estão Bahamas, Granada, Jamaica, Trinidad e Tobago e outros que lembram escalas dos muitos cruzeiros marítimos que circulam pela região. Ou seja, dependem muito do turismo e foram particularmente afetados pela referida crise. Mas, nas previsões de crescimento para 2014, 10 superam a do Brasil e 11 mostram taxas superiores à média do triênio anterior, o que indica recuperação também nessa região.

No meio de tantos países, surpreendeu-me o bom desempenho da Bolívia. Seu PIB teve crescimento médio de 5,7% no último triênio e a taxa prevista para 2014 é de 5,5%. Dilma Rousseff deveria ver se Evo Morales tem algo a lhe ensinar, porém com cautela, pois entre as habilidades dele está a de tomar patrimônio e obter preços maiores do Brasil para o gás natural que exporta para nós.

A segunda agravante é que no Brasil são poucos os que creem que o PIB do País cresça 1,4% em 2014. Fora do governo a maioria das previsões aponta para uma taxa inferior a 1%.

Esses dados confirmam que o Brasil tem seus próprios e muitos problemas a resolver se quiser dar melhores rumos à sua economia. E mais: mesmo admitindo algum papel da economia mundial no desarranjo econômico atual, são tantos, fortes e flagrantes os erros de política econômica "made in Brazil" que já os retiram da condição de meros suspeitos de constituírem a força mais robusta e atuante.

Vale relembrar alguns dos mais evidentes nas ações macro e microeconômicas governamentais. Entre as primeiras, o apelo ao consumo exacerbado pelo crédito fácil, admissível em épocas de muito fraco desempenho da demanda, mas suicida no médio e no longo prazos, quando se revela indispensável o papel dos investimentos na expansão da capacidade produtiva e na geração de empregos e renda capazes de sustentar endividamento adicional. Ora, os investimentos não receberam a devida atenção, como no caso daqueles em infraestrutura. A propósito, o estudo da Cepal afirma que (página 57), "no Brasil, a atividade econômica, sobretudo o investimento, segue debilitada".

E não me lembro de ver o governo a exaltar as virtudes da poupança. Sinônimo de economia, ela não está nos discursos nem nas ações governamentais, que também deveriam incuti-la na cabeça das pessoas, pois sua prática está no caminho da prosperidade pessoal e nacional.

Na microeconomia, as políticas desastrosas foram tão voluntariosas e inconsequentes que prejudicaram até empresas estatais tão endeusadas pelos condutores dessas políticas, com destaque para a Eletrobrás e a Petrobrás, esta com sua imagem manchada também por notórios malfeitos. Como atuam no setor energético, em que há também empresas privadas, várias destas foram igualmente prejudicadas, como as do setor sucroenergético, tanto na sua atuação como nos seus planos de investimentos.

E há as práticas criativas para dissimular maus resultados, os quais deveriam servir ao menos para advertir os condutores quanto a perigos, à maneira do velocímetro e do termômetro no painel de um automóvel. Contudo a visão desse mau comando não escapou à observação dos agentes econômicos, em particular dos empresários. Isso fez ruir a confiança na gestão do governo, indispensável ao sucesso da política econômica, pois este depende da crença desses agentes na competência de quem a formula e na perspectiva de seu sucesso.

Hoje, a única utilidade desse desastre econômico é, analisadas as suas causas, a de guiar os que inevitavelmente enfrentarão o desafio de repará-lo.

Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard) e consultor econômico e de Ensino Superior.

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