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Pio Brasileiro, um pedaço do Brasil em Roma

DOM ODILO P. SCHERER - O Estado de S.Paulo

14 Junho 2014 | 02h 05

O Pontifício Colégio Pio Brasileiro, ligado à Conferência Episcopal do Brasil (CNBB), destina-se a acolher padres brasileiros para estudos de pós-graduação em Roma. É uma casa ampla, sóbria, com acomodações simples, boa biblioteca e até campo de futebol. Neste ano o Pio Brasileiro completa 80 anos de história.

Sua origem remonta a 1858, quando Pio IX, papa na época, criou em Roma um colégio para oferecer formação qualificada a futuros sacerdotes de toda a América Latina. Era o Pontifício Colégio Pio Latino-Americano. No Brasil ainda havia poucos seminários e não existia o acesso a estudos especializados em Teologia. Por isso muitos brasileiros também estudaram no "Pio Latino", como os cardeais Joaquim Arcoverde, Sebastião Leme e Alfredo Vicente Scherer.

No Natal de 1927 os bispos do Brasil enviaram uma carta às comunidades católicas do País expondo os motivos para a criação de um colégio, em Roma, destinado à formação de candidatos brasileiros ao sacerdócio. Ao mesmo tempo, apelavam para a generosidade dos fiéis de apoiar esse projeto com recursos materiais.

Já em 1929, apesar da forte crise econômica mundial, foi lançada a pedra fundamental para a construção do Pontifício Colégio Pio Brasileiro; o cardeal Sebastião Leme, do Rio de Janeiro, foi um dos grandes incentivadores de sua edificação. Em 3 de abril de 1934 o colégio foi inaugurado e abriu as portas para a primeira turma de alunos; eram apenas 34, entre os quais, o futuro cardeal Agnelo Rossi. Em 1939 já eram a 52 alunos. A direção do colégio foi confiada aos jesuítas pelo papa Pio XI, tendo o acompanhamento atento também da própria Santa Sé.

Durante a 2.ª Grande Guerra, o Pio Brasileiro não escapou à crise: em 1943, por dificuldades de viajar para a Itália e pela escassez geral de alimentos, o número de alunos baixou para apenas 12. Conta-se que, para suprir a falta de alimentos, até o campo de futebol do colégio foi transformado em terreno para cultivar batatas... Atendendo ao apelo de Pio XII às casas religiosas, também o colégio escondeu um grupo de judeus perseguidos pelo nazismo; um deles, em sinal de gratidão, esculpiu uma imagem da Virgem Maria, que lá se encontra ainda hoje.

Após a guerra, o número de alunos subiu rapidamente e em 1954 chegou a abrigar 130 jovens, que faziam seus estudos nas universidades eclesiásticas romanas. Durante o Concílio Vaticano II, nos anos 60, os estudantes tiveram a oportunidade de ouvir conferências de grandes teólogos, como Karl Rahner, Henri De Lubac, Dominique Chenu e Joseph Ratzinger.

Até os anos 60 os estudantes eram, na maioria, jovens ainda não ordenados sacerdotes; aos poucos, os padres foram substituindo os seminaristas até que, no final dos anos 80, o colégio passou a receber apenas sacerdotes para estudos nas diversas universidades eclesiásticas em vista do mestrado e do doutorado. Desde então, a média anual de alunos do Pio Brasileiro mantém-se em cerca de 90 estudantes.

Durante o ano letivo os estudos requerem toda a atenção, mas nas férias há várias oportunidades para enriquecer a experiência fora do Brasil: alguns estudantes se dedicam à assistência religiosa em paróquias na Itália e em outros países, outros frequentam cursos ou fazem estágios para aperfeiçoar o conhecimento de idiomas, mas também há os que trabalham como operários para prover a própria manutenção nos estudos. Eu mesmo passei por essas experiências, muito valiosas, no período de meus estudos no Colégio Pio Brasileiro.

Os sacerdotes que estudaram no Pio Brasileiro já somam mais de 2 mil, a maioria, brasileiros; mas alguns são de países africanos de língua portuguesa e de alguns países latino-americanos. Os bispos do Brasil ex-alunos do colégio passam de 150, entre os quais, seis cardeais.

Na sua história octogenária, o Pio Brasileiro recebeu a visita do presidente Juscelino Kubitschek e dos papas Paulo VI e João Paulo II. No ano do seu 80.º aniversário, poderá ser visitado também pelo papa Francisco. Durante os anos da repressão política no Brasil, o colégio tornou-se referência em Roma para muitos brasileiros exilados. Também lá, todos os anos a comunidade brasileira local se reúne para comemorar importantes datas nacionais do Brasil.

Os dados até aqui mencionados destacam o significado do colégio para a Igreja Católica no Brasil. Mas é preciso mencionar ainda que ele oferece ambiente para uma formação teológica e cultural de primeira ordem. Nas universidades e nos centros de estudos de Roma, os estudantes encontram e convivem com professores e colegas provenientes de todas as partes do mundo.

Significativo também é o acesso a patrimônios da cultura e da História da humanidade, que a Itália e a própria cidade de Roma oferecem em abundância. E a proximidade com a Santa Sé e o coração da vida da Igreja, em torno do papa, ajudam a perceber a universalidade e a variedade da própria instituição eclesial. Essas oportunidades ímpares, oferecidas pelo Pio Brasileiro a quem nele vive e estuda, permitem alargar os horizontes da compreensão do mundo, da cultura e da mesma Igreja.

No Brasil, os padres formados em Roma tornam-se, geralmente, professores de Teologia e Filosofia, ou ocupam cargos de responsabilidade na direção de seminários e instituições eclesiásticas de estudos, bem como na coordenação de serviços pastorais nas dioceses.

Até agora a direção do Pio Brasileiro esteve a cargo dos padres da Companhia de Jesus, que deixaram sua marca na história do colégio. A eles é devido um profundo reconhecimento. A partir de outubro deste ano, a própria CNBB vai assumir a responsabilidade por esse pedaço do Brasil no coração de Roma.

CARDEAL-ARCEBISPO

DE SÃO PAULO

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