Planos para o Afeganistão

Na esteira de mais um atrito com o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, sobre a condução da guerra ao Taleban, os Estados Unidos obtiveram o apoio formal da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para o que a Casa Branca denomina "estratégia de transição" - à diferença do que seria uma estratégia de retirada do país invadido há nove anos. Como era de esperar, o aval foi dado na reunião de cúpula do organismo, no último fim de semana, em Lisboa.

, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2010 | 00h00

Quando, em dezembro do ano passado, o presidente Barack Obama anunciou o envio de 30 mil tropas ao Afeganistão, elevando o total ali acantonado para cerca de 100 mil, ele também marcou para julho de 2011 o início da saída dos efetivos, com a transferência gradual das ações militares para as forças afegãs em formação. Mas nada indicou para além dessa data.

Com isso ficaram novamente nítidas as dificuldades dos EUA de conceber metas consistentes nesse conflito em que já morreram cerca de 1.400 americanos e 800 soldados de 26 outras nacionalidades. O objetivo da invasão do Afeganistão é a erradicação das bases da Al-Qaeda, responsável pelo ultraje do 11 de Setembro. A organização terrorista tem a proteção do Taleban e dispõe de santuários no vizinho Paquistão.

"Não estamos ali para construir uma democracia perfeita, muito menos uma sociedade modelo", disse dias atrás o chefe do governo mais alinhado com os EUA nessa frente, o primeiro-ministro britânico, David Cameron. "Estamos ali para ajudar os afegãos a cuidar de sua segurança e garantir que a Al-Qaeda nunca mais nos ameace a partir do território do Afeganistão." O problema é que as perspectivas da empreitada continuam incertas.

Na tentativa de clarear o cenário, manter a coesão da aliança e enviar uma mensagem otimista para a população afegã, o governo Obama traçou um plano pelo qual a responsabilidade pela segurança no país começará a ser transferida aos efetivos locais, região por região, em meados de 2012. As últimas áreas repassadas serão as mais perigosas, no Sul e Leste do país. A participação estrangeira em ações de combate deverá cessar no final de 2014.

O projeto segue o modelo adotado no Iraque, de onde Obama retirou em agosto 2/3 das tropas americanas. Os 50 mil remanescentes se ocupam de tarefas de retaguarda. Atentados terroristas continuam a ocorrer, mas a sua incidência diminuiu desde a intensificação das ações militares dos EUA no país, ordenada pelo então presidente George W. Bush em 2007, e a aceleração do recrutamento de iraquianos para o combate à insurgência.

No Afeganistão, os aliados afirmam que o processo avança mais depressa do que se esperava. Já teriam sido treinados 144 mil homens. A meta são 350 mil em 2013. Os críticos retrucam que a operação, ao custo de bilhões de dólares, apenas produziu "pólvora de má qualidade para canhão" e temem que o plano de Obama induza os responsáveis pelo preparo dos recrutas a considerá-los aptos antes da hora para enfrentar o calejado Taleban.

Embora o governo Karzai e a organização mantenham o diálogo, o seu número um, mulá Mohammad Omer, insiste em que nenhuma conversação de paz será possível enquanto houver tropas estrangeiras no país. "O inimigo está tentando expandir as suas operações", alega. Para o comandante da Otan, Anders Fogh Rasmussen, a pressão militar visa a levar o Taleban a "conversações de reconciliação" com as autoridades de Cabul.

Uma semana antes da cúpula, Karzai condenou em termos fortes as incursões noturnas a aldeias suspeitas de abrigar os taleban - um aspecto central daquelas operações. Numa entrevista que surpreendeu e enfureceu o comando aliado, ele não apenas atacou a "intrusão" militar na vida cotidiana afegã, que faz vítimas inocentes e afronta a soberania nacional, ressaltou, como disse ter chegado a hora de reduzir a presença de "botas" no país.

Os relógios de Washington e Cabul evidentemente não conferem. Resta saber se a estratégia americana "de transição" endossada pela Otan facilitará a sincronia dos ponteiros.

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