Pogrom em Port Said

Há poucas dúvidas de que as forças de segurança do Egito - cujos métodos, cadeia de comando e impunidade assegurada continuam a ser os mesmos dos tempos do ditador Hosni Mubarak - estão implicadas na matança que se seguiu a uma partida de futebol, quarta-feira, em Port Said, a 220 quilômetros do Cairo. No que inicialmente foi tido como uma expressão extremada da barbárie que volta e meia irrompe nos estádios do mundo quando bandos delinquentes investem uns contra os outros, pelo menos 74 torcedores morreram e 600 saíram feridos do confronto entre os adeptos dos times em campo - o Al-Masry, da cidade, e o cairota Al-Ahly, o mais popular do país.

O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2012 | 03h05

No entanto, do que já se sabe do episódio fica a quase certeza de que os torcedores da equipe visitante foram vítimas de um massacre deliberado - um pogrom, como os que costumavam se abater sobre populações judaicas do Leste Europeu - com a conivência, se não o estímulo, do intocado aparato repressivo egípcio. Quando a chacina começou, por exemplo, ninguém abriu os portões usados pela torcida do Al-Ahly, mas a saída dos rivais do Al-Masry estava desimpedida. A ostensiva presença, nas arquibancadas, dos baltayiya - gangues armadas com facas, pedras e porretes a quem a polícia recorreu para dispersar a multidão concentrada na Praça Tahrir, no início dos protestos contra o regime - parece atestar a cumplicidade de, no mínimo, integrantes dos serviços de segurança com o banho de sangue.

A emboscada em que caíram os al-ahlyanos, no mesmo dia em que, há um ano, bandidos montados em camelos atacaram os manifestantes no Cairo, foi decerto preparada em represália à participação de muitos deles nas jornadas pela queda de Mubarak - e, depois, pela renúncia da junta militar que assumiu o poder, sob o comando do marechal Mohamed Hussein Tantawi, braço direito do ditador. Em novembro último, o enviado especial do Estado ao Egito, Lourival Sant'Anna, testemunhou o entusiasmo dos torcedores na segunda grande onda de protestos em Tahrir. "Eles não vestiam o uniforme do time", relata, mas cantavam e pulavam abraçados, exatamente como fazem nos estádios. Parte desses jovens, como os seus iguais de outros times, é chamada pelos egípcios "ultras" - exaltados, em tradução livre.

A dizimação dos torcedores em Port Said foi o maior ato de violência dos últimos meses no Egito. Em outubro, tropas do Exército reprimiram à bala uma concentração pacífica de cristãos coptas, matando 25 deles. As tragédias indicam o muito do que a Primavera Árabe ainda precisa para brotar no principal país maometano da região. É fato que o regime promoveu eleições parlamentares livres e limpas. Os partidos islâmicos, que ora apoiaram, ora se distanciaram dos protestos, obtiveram 70% das 508 cadeiras do Congresso. O Supremo Conselho das Forças Armadas também formou um governo civil, chefiado por Kamal el-Ganzouri. Mas a junta se recusa a abolir as leis de emergência que permitiram ao velho regime cometer toda sorte de atrocidades.

De seu lado, Ganzouri, um fuloul, ou remanescente da era Mubarak, é tão atrasado, desdenham os egípcios, que se expressa por hieróglifos. A oposição exige que o seu governo seja submetido a um voto de confiança no Congresso - o que a Constituição transitória do país não prevê. Por sinal, os militares estão decididos a dar aos parlamentares poderes apenas limitados para elaborar a Carta que a substituirá - o orçamento das Forças Armadas, as relações exteriores e as políticas de defesa e segurança serão da alçada exclusiva dos quartéis. "Nas próximas semanas ficará claro até que ponto o Parlamento se alinhará com a Revolução", escreveu a ativista Ahdaf Soueif, no primeiro aniversário do Movimento 25 de janeiro.

Dada a relação de forças no Legislativo, muito vai depender do ambíguo Partido da Justiça e Liberdade, da Irmandade Muçulmana, que detém 45% das cadeiras. O presidente da Casa, Saad el-Katatni, membro da legenda, em sintonia com o clamor da rua, acusou o governo de cumplicidade com a matança de Port Said. Menos mal.

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