Polarização estéril e perigosa

Hora de quebrar tabus, reconhecer pecados, submeter-se à Justiça e pedir perdão ao País

*Sergio Fausto, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2017 | 03h01

O Brasil está dividido como nunca esteve desde que recuperou a democracia, em 1985. A divisão da sociedade em dois campos políticos antagonizados, incapazes de dialogar, é péssima para qualquer país. Basta olhar ao redor para constatá-lo. A História da Argentina nos últimos 70 anos é marcada pela polarização política entre peronistas e antiperonistas e pela decadência econômica, um longo ciclo negativo que o governo de Mauricio Macri pode vir a encerrar. Muito pior é a tragédia da Venezuela no período mais recente. Ela resulta de uma polarização política e social que, pelos desmandos do chavismo, chega agora à beira do confronto desigual entre bandos armados pelo governo e manifestantes oposicionistas indefesos, também reprimidos por Forças Armadas partidarizadas.

A polarização no Brasil é menos profunda que nesses países vizinhos. Lula não foi apeado do poder e banido do País por um golpe civil-militar, como Perón o foi em 1955, permanecendo proscrito até seu desastroso regresso à Casa Rosada, em 1974. O líder do PT saiu do poder como o presidente mais popular da História brasileira, aprovado pelo povão, por parte da elite e ainda pelas “classes médias” que ascenderam durante seus mandatos. Hugo Chávez enveredou pela trilha sem retorno do “socialismo do século 21”, indo muito além do populismo latino-americano, mesmo o do primeiro governo Perón, no ataque à economia de mercado e à democracia liberal. Em que pesem simpatias ideológicas e o condenável apoio ao chavismo, Lula e o PT no poder não foram “bolivarianos”.

Ainda assim, preocupa a divisão que se vê hoje no País. Isso porque o Brasil não é viável sem uma razoável base comum de entendimento sobre os desafios que enfrentamos para retomar o desenvolvimento e porque não é governável sem acordos que, a despeito da competição política e da divergência de opiniões, indispensáveis à democracia, permitam aos governos, de quaisquer partidos, avançar na superação desses desafios.

Na versão lulopetista da História brasileira recente a polarização é produto do inconformismo das classes dominantes com o caráter popular dos governos do PT. A situação ter-se-ia agravado com o “golpe parlamentar” que tirou Dilma Rousseff da Presidência, patrocinado pela aliança entre “a elite rentista” e o submundo da política, com o beneplácito do PSDB. Dessa trama também fariam parte procuradores, juízes e a “mídia hegemônica”. A versão tem algum lastro na realidade – sim, o impeachment aprofundou a polarização; sim, Eduardo Cunha teve papel decisivo para dar início ao processo –, mas está a serviço não de esclarecer os fatos, e sim de encobrir verdades inconvenientes ao PT, a seus líderes e aliados. Se quisermos superar essa polarização estéril e perigosa, é preciso reconstituir com maior razoabilidade a gênese do quadro atual.

No Planalto, a simbiose do PT com o submundo da política teve início logo cedo e só fez crescer ao longo dos anos em que o partido esteve no poder. Em boa medida, tratou-se de uma escolha, não de uma exigência do presidencialismo de coalizão. Lula chegou ao poder depois de uma transição de governo sem precedentes. Ato contínuo, o PT elegeu o PSDB como inimigo principal e tachou o legado do governo anterior de “herança maldita”. Ao mesmo tempo, passou a financiar a transferência de parlamentares para legendas menores a fim de compor a base governista. Eram siglas e políticos que mercadejam apoio por dinheiro, como não tardou a ficar claro no escândalo do mensalão.

Desfeito o esquema das “mesadas”, pela ação da Justiça, o PT, agora em aliança com o PMDB, engendrou o petrolão, apelido redutor, visto que o esquema de corrupção não se limitou à Petrobrás. Os que liderariam o “golpe parlamentar” contra Dilma formaram, com a cúpula petista, o comando do sistema criminoso que tomou o Estado brasileiro de assalto a partir de 2005-2006. A oposição aos governos Lula e Dilma, PSDB à frente, tem culpa nesse cartório, pois aceitou polpudas gorjetas das empresas que participavam do petrolão e também operou esquemas próprios nos Estados. Mas quem há de negar o protagonismo do PT e do PMDB na criminalização da política do País?

Foi o sistema federal que abasteceu com mundos e fundos a campanha de Dilma. A reeleição viabilizou-se com recursos ilícitos e procedimentos ilegais. Não só a ex-presidente, ao que tudo indica, sabia de onde vinha parte das doações à sua campanha, como também, isso com certeza, autorizou a violação reiterada da Lei de Responsabilidade Fiscal com as chamadas pedaladas, causa jurídica principal do impeachment. Como se fosse pouco, perpetrou um “estelionato eleitoral”, vendendo ilusões com dinheiro de caixa 2 pago ao casal de marqueteiros petistas em conta no exterior. Legou, ela, sim, uma herança maldita, a maior crise econômica documentada na História do País.

O mais penoso é constar que, quanto mais avançava a aliança criminosa da política com os negócios de um punhado de empresas, mais Lula e o PT aumentavam os decibéis da retórica do “nós” contra “eles”, do povo contra a elite, dos patriotas contra os entreguistas. Quanto mais dilapidavam a Petrobrás, com políticas erradas e corrupção em lagar escala, mais acusavam a oposição de querer privatizá-la. A exacerbação retórica, acompanhada da progressiva desmoralização ética e da crescente incompetência governamental, expandiu o campo antipetista e, dentro dele, ampliou o espaço de setores mais conservadores e mesmo de uma direita abertamente autoritária. Alguma surpresa, companheiros?

Ainda é tempo de o PT, em parte, ao menos, voltar a ter um papel construtivo na democracia brasileira. A condição é que abandone a defesa cega de seus totens. Chegou a hora de quebrar tabus, reconhecer pecados, submeter-se à Justiça e pedir perdão ao País. O mesmo vale para os demais partidos que contribuíram para as conquistas democráticas dos últimos 30 anos.

*Superintendente executivo da fundação FHC, colaborador do Latin American Program do Baker Institute of Public Policy da Rice University, é membro do Gacint-USP

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