Por que não atingimos a ‘classe mundial’?

Nas universidades públicas brasileiras o mérito está cada vez mais em segundo plano

*Elcio Abdalla, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2017 | 04h08

Há três semanas os professores Hernan Chaimovich e Carlos Henrique de Brito Cruz escreveram um excelente artigo sobre por que deveríamos almejar uma universidade brasileira de “classe mundial”. Por que não conseguimos ainda caminhar nessa direção?

Nas universidades públicas do País prospera a ideia de que as universidades são uma imagem da democracia, de que todos na universidade, de estudantes a professores titulares, passando por todos os funcionários, devem ter exatamente o mesmo peso nas grandes decisões. Nenhum erro é mais profundo e deletério que esse tipo de “populismo universitário”.

As universidades são o templo do saber, onde o conhecimento é produzido e desenvolvido. A liderança na universidade deve ser exercida por seus membros de maior capacidade. Não há dúvidas de que a universidade é uma instância da democracia nos dias de hoje, mas internamente a universidade não é uma simples democracia. Entre as universidades de elite de todo o planeta não há quase exemplos da escolha de dirigentes por voto direto, como querem alguns sindicalistas professores (nessa ordem!). Quem tem mérito – e representa os interesses e anseios da sociedade – é que indica os dirigentes. Isso é feito, de preferência, por um “comitê de busca”, composto por membros de alto prestígio acadêmico.

Nas universidades de elite do mundo a escolha das lideranças não se dá pelo “voto popular”. Nas americanas – Stanford, Califórnia, as prestigiosas Harvard e Princeton (todas entre as dez primeiras do planeta) – há um órgão central, o board of trustees, com representantes eminentes da sociedade e da própria academia, um grupo seleto de cerca de meia centena de pessoas que são responsáveis pela designação dos comitês de busca e pela escolha final dos reitores. Na primeira universidade do mundo, Oxford, no Reino Unido, há um chancellor, figura de grande prestígio eleita pelos membros da instituição. Em geral esse “chanceler” é uma figura pública de grande destaque – atualmente é um ex-governador de Hong Kong – que faz a representação formal de Oxford em caráter vitalício; o vice-chanceler, que é apontado por um grupo mais restrito de conselheiros, é que faz o papel dos nossos reitores. Nos Estados Unidos há um grupo de universidades com ideais liberalizantes, com muito poder dado aos estudantes. No entanto, não se encontra nesse grupo nenhuma universidade de “classe mundial”.

Nas universidades públicas brasileiras o mérito está cada vez mais em segundo plano. Há um viés sindicalista, clamando pelo voto popular na maioria das decisões importantes, o que acaba solapando a universidade brasileira. A USP praticamente faliu devido principalmente à satisfação de demandas populistas nas gestões anteriores. O atual reitor, professor Marco Antonio Zago, foi obrigado a fazer milagres para manter a USP em funcionamento. Mas o populismo continua propondo que o governo dê mais verbas para o funcionamento das universidades públicas paulistas. A nossa igualdade de salários e de direitos faz inveja a qualquer país escandinavo, com a diferença notável de que apenas um desses países inteiro cabe na cidade de São Paulo! Não raro uma secretária (não bilíngue!) tem salário de fazer inveja a professores titulares.

O populismo dentro da USP está rasgando o tecido social meritocrático. Apesar da crise, os sindicatos continuam mostrando sua voracidade pelo poder, com ridículas propostas de gestão paritária. Mais recentemente, apareceu uma proposta, também acintosa, de “eleição de dirigentes” em que estudantes e funcionários teriam 30% dos votos, e professores teriam os seus votos igualitariamente distribuídos nas diversas categorias, independentemente do mérito acadêmico.

Nas universidades paulistas há um grande número de grupos de excelência. Temos grupos na Faculdade de Medicina que praticam procedimentos de Primeiro Mundo. Na Astronomia, os grupos brasileiros fazem parte de projetos internacionais de grande repercussão em condição de igualdade com lideranças internacionais importantes. A Fapesp faz um enorme esforço em diversas áreas, com contribuições que ultrapassam a fronteira da ciência, tentando induzir o desenvolvimento de tecnologias de ponta, de relevância para o próprio parque industrial do País. No Instituto de Física há colaborações com grupos da Biociência que desenvolvem técnicas de combate ao excesso de colesterol no sangue, responsável por patologias como a aterosclerose. Grupos importantes se fazem presentes na Unicamp e no Instituto de Física Teórica da Unesp, com contribuições importantes à ciência. Esses são apenas alguns exemplos.

Em São Paulo, a Fapesp sempre se mostrou de excelência justamente por ser gerida por cientistas e ter decisões balizadas apenas e tão somente pelo mérito acadêmico.

O pleno desenvolvimento dos trabalhos de pesquisa na universidade depende de um ambiente propício, sem as ameaças deletérias do populismo. Em manifestação recente, os sindicalistas da USP pretendem até ditar os rumos do nosso trabalho acadêmico! Alguns mostram seu ódio à própria Fapesp por ser esta contrária a qualquer intervenção populista.

Enquanto não dermos um basta à fúria populista, a USP continuará descendo a ladeira em direção à vala comum das universidades de terceiro nível. Nesse cenário lastimável, os docentes competentes passarão a procurar locais de trabalho mais adequados às suas aspirações científicas e acadêmicas. A USP deixará de ser o “bastião de qualidade” do povo paulista. Ao invés de se transformar numa “universidade de classe mundial”, a USP corre o risco de passar às mãos dos oportunistas de plantão, prontos para tomar o poder temporal sem a menor capacidade acadêmica de impulsionar a ciência e a cultura que bem merece o povo de São Paulo, que nos atribui quase 5% do montante de impostos arrecadados.

*Professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, é membro da Academia Brasileira de Ciências

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