Pouca tinta na caneta

No seu discurso sobre o Estado da União, terça-feira à noite na Câmara dos Representantes, o presidente americano, Barack Obama, usou 7 mil palavras para dizer essencialmente o seguinte: a economia vai bem, o povo vai mal e eu estou decidido a mudar por decreto essa situação - fazendo de 2014 "um ano de ação" e governando "com a caneta". Só que falta tinta: as medidas anunciadas para melhorar o nível de emprego, o salário dos trabalhadores e o seu acesso a uma aposentadoria decente são tópicas demais e de alcance limitado demais para Obama finalmente se tornar o presidente transformador que prometeu ser na arrebatadora campanha de 2008.

O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2014 | 02h09

Desde então, as mazelas sociais dos EUA se agravaram, enquanto a Casa Branca travava uma batalha inglória atrás da outra com um dos mais reacionários Congressos que Washington já viu. A prioridade da oposição republicana foi invariavelmente impedir que o democrata, primeiro presidente negro da história do país, conseguisse governar. O seu mandato inicial foi consumido por sua obsessão com a reforma do sistema de seguro-saúde para incluir 30 milhões de americanos sem cobertura. À custa de concessões substanciais, o Obamacare acabou aprovado. Mas nada se fez para socorrer a população assalariada, atingida, via desemprego e cortes salariais, pela recessão.

Com a economia de novo firme, "os mais ricos nunca estiveram melhor", apontou o presidente. "Mas a média salarial mal se mexeu. A desigualdade se aprofundou. A mobilidade social estancou." E insistiu: "Americanos demais nunca trabalharam tanto só para se manter, que dirá progredir. Jovens demais, chegando ao mercado de trabalho, verão no sonho americano uma promessa vazia - a menos que também façamos mais para que a economia honre a dignidade do trabalho, tornando a faina recompensadora para cada americano".

Obama fala como Frank Sinatra cantava e Fred Astaire bailava. Mas a mágica perdeu o viço ao ficar claro que, espremido entre um Capitólio hostil e as suas próprias vacilações como governante, Obama "não pode". Ainda assim, contra um adversário sem o mínimo apelo, ele se reelegeu em 2012. E, no ano seguinte, nessa mesma época, a sua popularidade estava em 55%. Agora, caiu para 46%. Não é que a maioria se oponha à sua agenda progressista. Esta inclui o aumento do salário mínimo, salários iguais para homens e mulheres, seguro-desemprego, universalização do ensino básico e auxílio-educação, regulação do sistema financeiro, reforma das leis de imigração e controle do acesso a armas de fogo.

Só que essa mesma maioria já não acredita que Obama seja capaz de transformar retórica em realidade. O ano de "ação" deve soar a muitos como a "promessa vazia" de que ele falou em relação ao sonho americano visto pelos candidatos ao primeiro emprego. O ano terá, isso sim, eleições para a renovação parcial do Congresso. No pleito nacional de 2012, os republicanos - e, o que é pior, os republicanos mais obscurantistas, financiados pelo movimento Tea Party - reafirmaram o seu controle sobre a Câmara. Detêm 234 das 435 cadeiras, e essa relação de forças não deve mudar muito. Já no Senado, onde a maioria democrata é algo menor (53 em 100), uma reviravolta republicana, embora improvável, não pode ser excluída de antemão.

Há quem diga que a Casa Branca devia mover montanhas para que os republicanos aprovassem ao menos as principais medidas que Obama quer implantar por decreto - e que, de resto, nada acrescentam às suas bandeiras originais que não conseguiu hastear. É o caso do aumento do salário mínimo. Com a caneta, ele vai elevar de US$ 7,25 para US$ 10,10 a hora trabalhada pelos funcionários de empreiteiras que vierem a prestar serviços ao governo, beneficiando algumas centenas de milhares de empregados. Pelo Congresso, o modesto aumento valeria para 17 milhões. Mas as reações republicanas ao discurso não animam.

Em nome do partido, a deputada Cathy McMorris Rodger até que fez uma crítica aguada. Mas o senador Mike Lee, pelo intratável Tea Party, atribuiu a desigualdade no país ao presidente, às cúpulas sindicais, à burocracia federal, ao casamento gay e ao aborto!

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