Precariedades da vida urbana

De 94,6 milhões de pessoas que vivem em concentrações urbanas, apenas 22,6 milhões, ou cerca de 24% do total, vivem em condições consideradas boas, de acordo com estudo inédito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2018 | 03h05

Apesar das facilidades que oferece à população, em termos de infraestrutura e serviços, a vida em áreas urbanas não significa conforto para a maioria dos habitantes das cidades. De 94,6 milhões de pessoas que vivem em concentrações urbanas, apenas 22,6 milhões, ou cerca de 24% do total, vivem em condições consideradas boas, de acordo com estudo inédito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apenas um entre quatro moradores das aglomerações urbanas vive bem. Numa escala de 11 classificações, a vida de 76% dos habitantes das principais áreas urbanas do País, ou 72 milhões de pessoas, está classificada entre as sete piores.

Com base em dados do Censo Demográfico de 2010, o estudo Tipologia Intraurbana: Espaços de Diferenciação Socioeconômica nas Concentrações Urbanas do Brasil combina diferentes características dos imóveis e das famílias que os ocupam, para estabelecer os 11 tipos de condições de vida, classificados por letras (de A, a mais elevada, a K).

Entre as características socioeconômicas utilizadas na avaliação do IBGE estão acesso a abastecimento de água e a sistema de coleta de esgoto e de lixo, número médio de moradores por cômodo utilizado como dormitório, rendimento domiciliar  per capita, nível de escolaridade, razão de dependência de menores de 15 anos, material de construção e de acabamento do imóvel, posse de equipamentos domésticos como máquina de lavar e disponibilidade de computador com acesso a internet. O IBGE identificou 65 concentrações urbanas com mais de 300 mil habitantes. Essas concentrações são formadas por 435 municípios, onde, pelo Censo de 2010, vivia metade da população do País.

O resultado é um país desigual também em suas aglomerações urbanas. Mesmo que algumas tenham renda média relativamente alta, não é raro que careçam de sistema de coleta e tratamento de esgotos. Apesar das reiteradas promessas do governo de cumprir a meta de universalização dos serviços de saneamento básico, o avanço nessa área desde a entrada em vigor da Lei do Saneamento Básico em 2007 tem sido lento. Cerca de metade da população do País não dispõe de sistema de coleta de esgotos. Em algumas regiões, a rede de abastecimento de água atende apenas metade da população e, desta, menos de 10% dispõem de rede de esgotos.

Embora preocupe, não surpreende o fato de tantos brasileiros viverem em condições desfavoráveis nos maiores aglomerados urbanos do País. Apenas 1,77 milhão de pessoas vivem em condições classificadas como A – a melhor de todas – pelo IBGE. A maior porcentagem de pessoas com qualidade de vida classificada como A e B foi registrada no Centro-Oeste (7,1% do total, ou 507 mil pessoas), em decorrência sobretudo dos dados do Distrito Federal. Isoladamente, Brasília é a cidade que tem a maior parcela da população vivendo nas melhores condições: 11,2% do total na classificação A. As condições de vida de praticamente um terço da população de Brasília, ou 32,6% do total, foram classificadas entre as letras A e D, que compõem o que o IBGE classifica como boas.

Na outra ponta da classificação está o Nordeste, onde 59,9% da população vive nas piores condições, classificadas como baixas, baixíssimas ou precárias. Segue-se a Região Norte, onde 56,3% da população vive em más condições. É no Norte que se observa a maior proporção de pessoas que vivem em domicílios com baixíssimas ou precárias condições de vida (35,4%).

Na Região Metropolitana de São Paulo, o maior aglomerado urbano do País, não se registra parcela expressiva da população vivendo nas piores condições (I, J e K). As melhores condições são registradas nas regiões centrais. Elas pioram conforme se afasta do centro.

Certamente o desastroso governo de Dilma Rousseff (2011- 2016) terá alterado, para pior, alguns desses dados, mas o seu real impacto só será conhecido com novos estudos.

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