Presidente sob protesto

Na história de todas as Rússias, sob o czarismo, o comunismo e o arremedo de democracia que ali impera desde a ascensão ao poder de Vladimir Putin, em 1998, nunca antes, como nestes dias, a investidura de um líder nacional foi precedida, acompanhada e seguida de tantas manifestações de protesto, tratadas com a brutalidade policial de sempre e nem por isso tendem a arrefecer.

O Estado de S.Paulo

12 Maio 2012 | 03h07

As fagulhas começaram a pipocar em outubro passado, quando Putin confirmou que pretendia voltar à presidência em 2012, depois de ocupá-la durante oito anos e se fazer suceder pelo afilhado político Dmitri Medvedev, seu então primeiro-ministro. De volta ao Kremlin, Putin devolveria Medvedev ao posto que ocupava. Apesar de um ou outro espasmo de autonomia do premiê, era Putin quem dava as cartas no seu governo.

Para todos os efeitos, portanto, o ex-agente da KGB estava para completar 12 anos como senhor da Federação Russa e se preparava para se conceder mais 8: metade a contar da última segunda-feira quando tomou posse, tendo vencido, como era certo que venceria, a eleição presidencial de março, e metade repetindo a dose em 2016. Se o esquema vingar, o regime de partido único que ruiu em 1991 cederá a vez, por muito tempo, a um regime de um único autocrata.

Mas, apesar dos amplos setores da população russa que não têm nada contra ser governados por um homem forte, desde que lhes proporcione o pão (e a manteiga) de todo dia e mantenha aceso o sentimento de grandeza nacional que remonta aos séculos dos czares, já não são raras, muito menos afônicas, as vozes dissidentes. Logo depois de anunciar, com a naturalidade dos onipotentes, a repetição do jogo de cadeiras com Medvedev, Putin foi vaiado pela primeira vez na vida - não por um público elitista, mas pela plateia de um torneio de boxe em Moscou.

Profissionais liberais urbanos que nasceram quando a velha ordem totalitária já se desmanchava, jovens que nem sequer a conheceram, mas vivem nas redes sociais e sabem o que foi a Revolução Laranja na vizinha Ucrânia, em 2004, além de cidadãos de todas as idades nos principais centros do país - a nova Rússia, enfim, está saturada do autoritarismo, política de compadrio, corrupção desenfreada, mídia submissa e violência repressiva da era Putin.

Nesse estado de ânimo, a fraude a céu aberto nas eleições parlamentares de dezembro em favor do partido do Kremlin, Rússia Unida, levou às ruas multidões sem precedentes desde o fim do comunismo. Passeatas como as dos últimos dias, aos gritos de "Putin ladrão", e "Rússia sem Putin", em referência também às trapaças que o ajudaram a se reeleger, poderão enfeitar cada vez mais, com as suas fitas brancas, a desolada paisagem cívica do país.

Sinal dos tempos, um dos seus líderes é um blogueiro, Alexei Navalny. Ontem cedo, aliás, ele foi preso por "desobediência", juntando-se a centenas de outras pessoas, presas desde o domingo. Para o truculento porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, é muito pouco. "Deviam ter esmagado a cara desses marginais no asfalto", vociferou. Como disse o seu chefe ao tomar posse (antes da festa de 5 mil garrafas de champanhe para 3 mil convidados), "queremos viver e viveremos em um país democrático".

Putin se vê como um homem do destino que resgatou a Rússia do colapso e quer reconstruí-la, à maneira de um Pedro, o Grande, do século 21. "O problema é que ele perdeu Moscou", observa a cientista política Lilia Shevtsova. "E o czar que perde Moscou está fadado a perder a Rússia." O comentarista moscovita Stanislav Kucher concorda: "A opinião que o país tem dele já não é a mesma". Até o renitente líder comunista Gennadi Zyuganov adverte que "calar bocas a bastonadas é insensato e extremamente perigoso".

O historiador inglês Orlando Figes, especialista em questões russas, também vê "um sentimento difuso de que as coisas têm de mudar". Mas adverte: "As demonstrações ainda não representam um desafio sério à autoridade de Putin".

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