Profissão: professor

Eleições são uma chance para a posicionarmos no centro do projeto brasileiro de educação

*Olavo Nogueira Filho e Rodolfo Araújo, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2018 | 03h07

A literatura existente já consagra há algumas décadas: ainda que não haja resposta única para assegurar uma educação de qualidade, a solução obrigatoriamente passa por professores bem preparados, motivados e com boas condições de trabalho.

Tal constatação nos foi reforçada quando, no início de outubro, mês de comemoração do Dia do Professor, lançamos na página do Facebook do Todos Pela Educação – organização da sociedade civil sem fins lucrativos e suprapartidária que objetiva contribuir para a melhoria da qualidade da educação básica pública brasileira – um convite às professoras e professores: contar a melhor história de sua carreira.

Recebemos centenas de respostas que não só demonstram a extensão do impacto da docência, mas revelam que parte importante da sua satisfação profissional está ancorada numa sólida tríade: preparo, motivação e boas condições de trabalho. A resultante? Alunos engajados e que aprendem.

Essa observação surge com ênfase nas mensagens compartilhadas por dois professores: uma delas conta-nos que a melhor parte da sua carreira é ouvir de seus alunos a frase “a aula já acabou?”, enquanto outro docente descreve seu grande momento: “(quando um) aluno se sentou na primeira fila e disse ‘não via a hora de ter essa matéria com o senhor’”. Ambas as situações refletem o poder de um trabalho pedagógico bem conduzido, que de trivial nada tem.

Pensar a qualidade do que ocorre em sala de aula passa pela conexão estabelecida entre professor e aluno. A força desse vínculo é elemento crucial para o desenvolvimento da criança e do jovem, em que o processo de aprendizagem não se dá de maneira transacional – focada apenas no cumprimento de uma agenda de conteúdos –, mas relacional, centrada também em diálogo, abertura e respeito. O impacto destes laços, uma vez fortalecidos, reflete-se não apenas em resultados objetivos, mas também no estímulo à permanência na escola. É isso que os relatos mostram e, não surpreendentemente, as próprias pesquisas também.

No entanto, salvo raras exceções, os esforços federais e dos sistemas estaduais e municipais não têm logrado êxito em promover as políticas que podem nos levar a observar este cenário em dimensão nacional. Tal fragilidade, em muitos aspectos, explica a dificuldade em melhorar os resultados educacionais dos alunos brasileiros.

Numa tentativa de enfrentar parte deste desafio, o Ministério da Educação (MEC) lançou recentemente uma nova política nacional para a formação inicial e continuada de professores. Ainda que a iniciativa careça de detalhamento sobre como os caminhos delineados serão efetivados, o esforço parte de um bom diagnóstico, elenca princípios desejáveis e sinaliza no sentido de dar progressividade a algumas das políticas implementadas pela gestão anterior que demonstram algum sucesso.

Quando confrontamos os dados e as evidências, porém, fica nítido que o desafio demandará uma visão ainda mais abrangente e sistêmica. Basta começar com o tema da atratividade da carreira: aproximadamente 70% dos alunos que ingressaram em cursos de Pedagogia em 2015 obtiveram desempenho abaixo da média no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e 20% nem sequer atingiram pontuação mínima para emissão do certificado de ensino médio. Não por acaso, observamos um quadro desolador mais amplo: a cada 100 alunos que iniciam sua trajetória universitária nas licenciaturas, só metade conclui e apenas 1/4 indica querer, de fato, ingressar na carreira.

Quando olhamos para os aspectos relacionados à motivação, um dos elementos da tríade acima apresentada, a necessidade de articulação de diferentes políticas torna-se ainda mais clara: conforme descreve o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) Fernando Abrucio, em publicação sobre os desafios da formação docente no País, “(a partir de uma revisão da literatura) pode-se concluir que a motivação está vinculada a um sistema de incentivo amplo, no qual é preciso articular várias ações. Juntamente com medidas para fortalecer a carreira (atração, retenção e desenvolvimento), dar um sentido à atuação profissional, ao trabalho coletivo da escola e ao relacionamento com alunos e comunidade aparecem como as variáveis motivadoras com maior impacto. A formação dos professores, inicial e continuada, tem de levar em conta essa complexidade”.

Diante desse contexto, o novo ciclo eleitoral nacional e estadual que se aproxima apresenta chance ímpar para posicionarmos a “profissão professor” como elemento central do projeto brasileiro de educação. E, nesse sentido, entendemos que o avanço do debate e o desenho de propostas ganham força e qualidade ao estarem alicerçados nos desafios da sala de aula conforme são vividos por aqueles que, todos os dias, fazem a educação acontecer: professoras e professores. Entrar em contato com suas opiniões, demandas e questionamentos é a maneira mais adequada de demonstrar respeito e embasar proposições alinhadas às diferentes realidades e esferas da política educacional que incide sobre a temática. Tal movimento pode aumentar a adesão e a sustentação necessárias durante processos de implementação de políticas que, em última instância, dependerão da confiança e do compromisso dos professores para que efetivamente resultem em impactos positivos nos alunos.

Em linha com esse raciocínio, de nossa parte, gostaríamos de deixar aqui um novo convite a você, professor(a), para aprofundarmos o diálogo e a troca. Queremos saber mais sobre sua atividade e de que forma podemos impulsionar o avanço desta agenda. Para isso, deixamos à disposição um link que lhe direcionará a um rápido questionário. Esperamos por vocês.

*Respectivamente, diretor de políticas educacionais e diretor de comunicação e conteúdo do Todos Pela Educação

 

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