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Projeções, projeções: do PIB para a Copa

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Ilan Goldfajn

Melhor escrever sobre as previsões para a Copa do Mundo do que para o PIB. É mais divertido. Nem sempre foi assim. Em 2010 o resultado da Copa decepcionou, com a eliminação do Brasil nas quartas de final ante a Holanda, mas o PIB cresceu impressionantes 7,5%. O País parecia ter decolado, como ilustrado pela imagem do Cristo Redentor na capa da revista The Economist na época. Passaram-se quatro anos e tudo mudou. A média de crescimento do PIB de 2011 a 2014 deve ter sido de apenas 1,8%, abaixo das previsões mais pessimistas. Dizem que não há entusiasmo pela Copa, mas só se fala nisso nestes últimos dias. Quais as chances da seleção brasileira e das outras seleções?

Antes da diversão, a obrigação. A divulgação do PIB na sexta-feira foi um balde de água fria. O PIB cresceu apenas 0,2% no primeiro trimestre de 2014. A indústria está em recessão. O investimento tem caído e pela primeira vez o consumo também mostrou crescimento negativo. A agropecuária tem sido o único destaque positivo do PIB.

O que preocupa no momento é a perspectiva para o crescimento do PIB no segundo trimestre deste ano. O sinal é inequívoco. Um conjunto amplo de indicadores coincidentes para o segundo trimestre - incluindo, entre outros, indicadores para a produção industrial, a atividade do setor de serviços, a demanda por crédito e a confiança de empresários e consumidores - aponta para uma retração da atividade econômica: projetamos queda de 0,2%. A consequência é uma perspectiva de crescimento fraco para o ano de 2014. Com o resultado mais fraco do PIB no primeiro trimestre, aliado à perspectiva de queda no segundo trimestre, dentro do contexto dos atuais fundamentos econômicos, acreditamos que a economia dificilmente conseguirá crescer acima de 1% em 2014.

As previsões para o resultado da Copa são mais animadoras, ao menos para os que torcem pelo Brasil. Usando as mesmas técnicas econométricas que empregamos para projeções econômicas (temperadas com alguma dose de cultura futebolística), encontramos indicadores que ajudam a prever os resultados na Copa. São dados que estatisticamente ajudaram a prever a probabilidade de uma seleção avançar nas Copas do Mundo desde 1994 (vejam o estudo Copa do Mundo da Fifa Brasil 2014: quem tem mais chance?, no Aplicativo Itaú Análises Econômicas). Os resultados passam no teste do bom senso: encontramos que, na semifinal, se classificam Alemanha, Espanha, Argentina e Brasil.

Há três fatores que saltam aos olhos quando analisamos os resultados na Copa: a qualidade da equipe no momento, a tradição e o apoio da torcida. A qualidade da equipe é possivelmente o fator mais importante para projetar a probabilidade de evoluir na competição. Uma variável objetiva de qualidade, o ranking da Fifa, que tende a resumir o desempenho recente da seleção, resulta correlacionada ao desempenho das equipes em Copas passadas. Além disso, os resultados dos campeonatos continentais (Copa América, Eurocopa, Copa Africana de Nações, etc.) também se mostraram relevantes para prever o desempenho de uma seleção na Copa seguinte.

A tradição, ou o “peso da camisa”, é um fator importante em competições esportivas. Há países que tendem a ter estruturalmente um bom futebol, mesmo que na atual conjuntura não estejam tão fortes. Duas variáveis de tradição se mostraram significativas para prever o desempenho das seleções na Copa: o número de títulos mundiais conquistados e se o país é europeu ou latino-americano. Ou seja, os países que conquistaram mais títulos tendem a ter uma probabilidade maior de chegar às fases finais. Além disso, equipes de origem europeia ou latino-americana têm desempenho, em média, melhor que o dos demais continentes.

Finalmente, as equipes que jogam em casa tendem a levar vantagem. Os resultados mostram que a tendência é essa, mesmo para aquelas sem tradição no futebol. Basta lembrar a histórica campanha da Coreia do Sul em 2002. De fato, em seis ocasiões o país organizador venceu o torneio. Suécia e Inglaterra só conseguiram chegar à final quando sediaram o evento.

É interessante observar que, no passado, jogar no próprio continente (Europa, ou América do Sul, por exemplo) não foi tão relevante para definir as chances das seleções. O fato de a Copa se realizar no continente do país mostrou baixa significância estatística.

Claro que há o imponderável. Além das variáveis objetivas, vale o uso de um grau maior de subjetividade. Desde a Copa de 1990, na Itália, sempre houve uma seleção africana alcançando pelo menos as oitavas de final (Camarões, Senegal, Gana, Nigéria) e em quase todas, uma seleção asiática (Japão, Coreia). Impusemos ao modelo que uma seleção africana e uma asiática se classificarão para as oitavas de final do torneio. Examinando o desempenho das eliminatórias nessas regiões e fazendo uma análise qualitativa dos grupos e dos times, concluímos que a Costa do Marfim e o Irã são os que têm mais chances de avançar para a fase seguinte.

Os resultados são interessantes. Na primeira fase os grandes favoritos avançam, com exceção da Inglaterra, que sucumbe aos tradicionais Itália e Uruguai no chamado “grupo da morte”. Nas oitavas, nomes mais fortes, como Colômbia, México e Rússia, vão ficando pelo meio do caminho. Um embate apertado ocorre nas quartas de final, entre Itália e Espanha. A Itália, tetracampeã mundial, é uma das seleções mais tradicionais da Copa, mas se estivermos certos a Itália cai nas quartas de final do torneio. Prevemos que Brasil, Espanha, Argentina e Alemanha cheguem às semifinais, com seus 11 títulos mundiais e grandes rivalidades históricas.

O estudo original para na semifinal, mas usando os dados um pouco mais além o Brasil aparece como campeão. Tomara!

Economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco

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