Promessas e dificuldades do segundo turno

Terminado o primeiro turno, a hora é de cálculos, análises e ponderações. O que disseram os resultados em termos políticos? Ganhou quem mereceu, quem melhor interpretou o sentimento das ruas ou quem teve mais estrutura de campanha? O que se pode esperar dos debates que ocorrerão nas cidades em que haverá segundo turno?

Marco Aurélio Nogueira,

16 Outubro 2012 | 08h22

Olhando o País em conjunto, entre mortos e feridos sobreviveram todos.

Ainda que tenha perdido no Recife, em Manaus e Belo Horizonte, cidades onde houve alto investimento político de Lula, e se saído mal nas capitais, o PT não foi afetado pelo julgamento do mensalão, nem pelo "cansaço" do eleitor com os longos anos de domínio do partido. Cresceu em prefeituras e em número de vereadores. Deixou evidente que sensibiliza parte grande da população. O efeito que as políticas federais tiveram nas eleições não foi desprezível. Lula pode até perder em São Paulo que não se enfraquecerá.

O PSB soube usar bem sua condição atual, equilibrando-se entre os apoios do governo federal e a independência de atuação. Ganhou onde já era poder (Recife e Belo Horizonte), mas o fez em grande estilo. E aumentou seu poder de barganha dentro e fora da coligação governante. O PSD, de sua parte, saiu-se bem para um novato sem crédito na praça. Ficou com Serra em São Paulo, mas flertou com o governo no restante do País. O PMDB reiterou sua tradicional capacidade de colar em todo o território nacional. Não emocionou nem retrocedeu demais.

O PSDB permaneceu como a única referência oposicionista do País, mas mostrou que tem voz fraca e poder de fogo apenas relativo. O resto da chamada oposição diluiu-se e perdeu o rumo.

Ficou claro que a sociedade quer mais dos políticos e começa a exibir sinais de que não se sente confortável com as respostas atuais. A votação obtida pelo PSOL no Rio é um bom indicador, pela capacidade que teve de dar voz a um plural e expressivo universo de gente interessada em alguma inovação progressista. Houve muita renovação nas Câmaras Municipais. Pelas redes sociais correu solta a reclamação contra o estilo tradicional de fazer campanha.

Outro indicador importante, que terá de ser cuidadosamente avaliado, é o número de eleitores que faltaram às urnas, anularam o voto ou votaram em branco. De acordo com o TSE, foram 25% do eleitorado. Na cidade de São Paulo, três em cada dez eleitores não votaram em nenhum candidato para prefeito. Para vereador a soma de brancos, nulos e abstenções chegou a 37,2%. É uma forma de alienação, mas é também uma forma de protesto, de indiferença, de cansaço com os políticos.

No caso mais tenso e discutido, o de São Paulo, o resultado foi excelente para a democracia, mas as torcidas eleitorais não gostaram. Tucanos e petistas gostariam de ter ido para o segundo turno com Russomanno, mais fácil de derrotar. Tiveram de engolir uns aos outros. Algum "sangue" rolará entre eles, porque a temperatura política subiu e há muito combustível acumulado. Mas os candidatos poderão caprichar no essencial: oferecer uma visão de cidade a partir da qual pedir votos.

Têm tudo para fazer isso. Os dois são os que melhor representam a cidade. Têm enraizamento institucional, conhecimentos agregados, capacidade de gestão e estrutura de campanha. Em termos pessoais, são preparados, falam bem, sabem como discutir e debater democraticamente. Por que não protagonizarão um bom debate público? Cada um deles tem seus fardos. Serra terá de se livrar da má avaliação de Kassab e do peso de sua longa trajetória política, que sugere continuísmo. E Haddad terá de se desgarrar do apadrinhamento excessivo de Lula, que lhe dá uma imagem de subalterno, e de Maluf, que lhe prega um carimbo de cinismo oportunista.

Haddad parte em vantagem, dadas a rejeição a Serra e a expectativa de mudança existente na cidade. Mas a flutuação do eleitor deverá ser a regra até o fim.

Serão três semanas que prometem. Com uma dose indesejável de sangue, mas também com chances de qualificação da democracia. As exigências da vida poderão pautar os candidatos. Quem tiver mais virtù republicana e sensibilidade social vencerá.

Se Serra ficar amarrado ao discurso da moralidade e insistir em vincular Haddad ao mensalão, sem dizer nada de substantivo sobre a vida paulistana, não sairá do lugar e correrá o risco de perder a eleição. Se Haddad persistir em associar os tucanos à elite, agitar o fantasma de que há uma "conspiração dos ricos" contra ele e se mantiver no horizonte de que é o candidato dos pobres, de Lula e Dilma, sem dizer nada de consistente sobre a cidade, girará em círculos e crescerá bem menos do que imagina.

Ambos terão de falar sobre a cidade, a vida coletiva, os problemas e dilemas urbanos, as possibilidades e expectativas da metrópole. Mas terão de falar com poesia, clareza e convicção, sem ficar limitados ao discurso do "plano de governo", das obras e realizações em que ninguém acredita. Terão de romper com o tatibitate da mesmice e da retórica insossa de promessas e acusações.

Pelo que representam na História do País, PSDB e PT podem oferecer aos paulistanos bem mais do que essa baboseira de botequim que afugenta e provoca tédio, em vez de engajamento e entusiasmo. Do lado tucano, ela supõe que o eleitorado acredita ser Serra o guardião da moralidade, o que é uma insensatez, até porque o eleitor acha que todos os políticos são suspeitos nesse quesito. Já a baboseira petista sobrevaloriza o papel de Lula, que em São Paulo nunca foi particularmente forte, e faz isso num quadro em que o apoio de Lula e Dilma já rendeu o que poderia render.

A única saída politicamente viável que os candidatos têm passa pela qualificação do debate entre eles e da comunicação com a sociedade. Se souberem caminhar nessa direção, um deles perderá, mas todos ganharão.

* PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA E DIRETOR DO INSTITUTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E RELAÇÕES  INTERNACIONAIS DA UNESP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.