Pronto-socorro para os bancos

O otimismo espalhou-se ontem pelos mercados, quando os maiores bancos centrais do mundo rico anunciaram uma ação coordenada para socorrer o sistema financeiro, ameaçado pela crise das dívidas soberanas e pela escassez de financiamento no próprio setor bancário. O Federal Reserve (Fed), o Banco do Canadá, o Banco da Inglaterra, o Banco do Japão, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco Nacional da Suíça participarão de um esquema para abastecer os bancos com recursos mais baratos. Para isso, concordaram em reduzir o custo das operações entre os próprios bancos centrais, a partir de 5 de dezembro. Se der tudo certo, esse dinheiro acabará reforçando a atividade econômica da Europa, já muito debilitada e com perspectivas muito ruins para os próximos dois anos. Outra notícia animadora veio da China, onde a autoridade monetária reduziu o depósito compulsório dos bancos, deixando-lhes mais dinheiro para financiar os negócios.

O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2011 | 03h06

As boas novidades surgiram um dia depois de anunciado o risco de rebaixamento de 87 bancos europeus pela agência Moody's de classificação de risco. A lista inclui bancos de algumas das maiores economias da zona do euro - 22 da Espanha, 17 da Itália e 7 da França - e de várias economias médias e pequenas. No mesmo dia, a agência Fitch informou o rebaixamento de dois bancos italianos de médio porte. Mais uma vez as grandes agências seguem o velho roteiro: depois de terem falhado na transmissão dos sinais de alerta, entram em cena com atraso e agravam os problemas de países e bancos já em dificuldades.

Também a ação dos bancos centrais seguiu um padrão bem conhecido nos últimos anos - mas a repetição, neste caso, tem um valor positivo. Desde o agravamento da crise financeira, em 2008, as autoridades monetárias têm coordenado suas ações mais prontamente que os Ministérios de Finanças. Já haviam feito isso em 2001, depois dos ataques terroristas às Torres Gêmeas e ao Pentágono, quando foi preciso mostrar aos mercados a disposição de fornecer o apoio necessário.

Entre o fim de 2008 e o primeiro semestre de 2009 os Ministérios de Economia e Finanças ainda conseguiram mostrar alguma capacidade de articulação para socorrer os bancos e sustentar algumas grandes empresas.

Tanto nos Estados Unidos como na Europa os governos agiram para mitigar os efeitos da crise e limitar a quebradeira nos mercados e o aumento do desemprego. Tiveram algum sucesso e para isso assumiram compromissos financeiros enormes, hoje refletidos no mau estado de suas contas fiscais. Passada a pior fase da crise, no entanto, diminuiu muito a capacidade de coordenação dos governos.

O Grupo dos 20 (G-20), formado pelas maiores economias desenvolvidas e em desenvolvimento, brilhou durante algum tempo como fórum de articulação de políticas, mas perdeu eficiência e relevância nos últimos dois anos.

Os governos europeus também se mostraram pouco eficientes na criação de soluções de longo alcance para a crise das dívidas soberanas e para a deterioração das condições no mercado financeiro. Conseguiram evitar a quebra da Grécia, de Portugal e da Irlanda, mas não evitaram o contágio de grandes economias da região, como Espanha, Itália e França, nem conseguiram pôr em operação em prazo razoável seu fundo de resgate financeiro.

Durante a maior parte do tempo, o BCE tem funcionado como bombeiro, apagando incêndios do dia a dia por meio de suas intervenções no mercado financeiro e, de modo especial, no mercado de títulos públicos emitidos até por grandes países, como a Itália. Já se discutiu se o BCE teria ultrapassado seu mandato, mas essa discussão é obviamente um tanto acadêmica. Sem sua intervenção, a rolagem das dívidas teria sido bem mais difícil.

Reunidos em Bruxelas, na terça-feira, ministros de Finanças da zona do euro foram incapazes, mais uma vez, de resolver como cumprirão o acordo de aumentar de 440 bilhões para 1 trilhão o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. A única notícia positiva foi sobre a próxima liberação de mais 8 bilhões do primeiro pacote de socorro à Grécia, negociado em 2010.

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