Proposta nada séria

A nova iniciativa do prefeito Fernando Haddad no terreno da chamada mobilidade urbana levanta uma dúvida

O Estado de S.Paulo

24 Julho 2016 | 03h02

A nova iniciativa do prefeito Fernando Haddad no terreno da chamada mobilidade urbana levanta uma dúvida. O apoio do atual governo municipal ao projeto de lei do vereador José Police Neto (PSD) que estabelece recompensa financeira aos paulistanos que utilizam bicicleta para seus deslocamentos – com o objetivo de incentivar a troca do carro ou do ônibus por esse meio de transporte – é mesmo para valer ou não passa de mais uma pirueta demagógica de olho nas eleições, que Haddad corre sério risco de perder?

Em qualquer dos dois casos, é uma jogada infeliz, porque tal ideia – supondo-se que a proposta, pobrezinha, mereça esse nome – mal se sustenta de pé, como indicam as sugestões para implementá-la feitas por Police e o subsecretário do Tesouro Municipal, Luiz Felipe Vidal Arellano. Segundo a Prefeitura, como mostra reportagem do Estado, os percursos feitos de bicicleta pelos interessados em participar do projeto – calculados de acordo com a distância, o local e o horário – darão direito a créditos que poderão ser resgatados em dinheiro ou gastos com um certo número de serviços, como descontos em passagens de ônibus ou viagens compartilhadas de táxi ou Uber.

Para tornar isso possível, será criado o bilhete mobilidade, que substituirá o bilhete único. Para evitar eventuais fraudes, a checagem dos percursos será feita com a ajuda de novas tecnologias, como a utilização de aplicativos por meio de aparelhos celulares.

O vereador Police “acha” – porque certamente não se deu o trabalho elementar de providenciar estudos a respeito – que “oferecer de R$ 4 a R$ 8 por dia em créditos resolveria” o problema de motivar os ciclistas. Como nada sai de graça, a primeira questão é saber quem pagará a conta. O dinheiro sairia dos recursos repassados às empresas concessionárias do serviço de ônibus sob a forma de subsídios, que este ano deverão chegar a R$ 2 bilhões. Isso não dá para ser levado a sério. Se fosse tão fácil reduzir subsídios, por que a Prefeitura não fez isso antes? Ou seja, essa questão continua em aberto.

Outra questão na qual nem Haddad nem Police tocaram é: por que dar incentivo financeiro aos ciclistas, se a expansão das ciclovias – como sustentou o prefeito para explicar por que elas, até agora, vivem entregues às moscas – seria o melhor e natural estímulo ao aumento de seus usuários? Se for para levar a sério tal proposta, não haverá como escapar à evidência de que seu objetivo é na verdade tentar aumentar, à custa dos cofres públicos, o número de ciclistas para justificar as ciclovias.

Primeiro, Haddad encheu a cidade de ciclovias, sem planejamento, sem estudos de demanda. Tanto é assim que elas começaram pela região central, onde sua presença é mais chamativa, em prejuízo da periferia, embora lá, sim, tudo indica que a demanda é maior.

Pesquisa feita pelo Datafolha mostra que 53% dos consultados dizem usar as ciclovias menos de uma vez por semana; 35%, de uma a duas vezes; 1%, de cinco a seis vezes; e 2%, todos os dias. Não por acaso, a aprovação das ciclovias caiu de 80% em setembro de 2014 para 58% em julho deste ano. E a desaprovação subiu de 14% para 36% no mesmo período.

Esses números indicam que a população paulistana deseja que a Prefeitura crie condições para que a bicicleta seja usada mais intensamente como meio de transporte, mas desaprova a maneira como Haddad atacou o problema. Para responder a esse anseio da população é preciso agir com responsabilidade, o que significa planejar a implantação de ciclovias com base em estudos técnicos capazes de indicar a sua efetiva demanda e onde elas devem se localizar. É o que foi feito em grandes cidades dos países desenvolvidos que Haddad gosta de citar – como Nova York e Paris –, mas cujos exemplos não seguiu.

E não seguiu porque estava mais interessado em impressionar demagogicamente a população, em busca de votos, do que em dotar a cidade de uma boa rede de ciclovias. A proposta de incentivo financeiro aos ciclistas é apenas mais um capítulo dessa triste novela.

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