Putin busca uma saída

Desde que os Estados Unidos e a União Europeia o puniram e lhe deram as costas por ter ordenado em março último a anexação da Crimeia ucraniana - mediante um plebiscito que, guardadas as proporções, daria o mesmo resultado sem a presença de militares russos -, o presidente Vladimir Putin não tinha tido a oportunidade de participar de uma conferência multilateral, muito menos de ser recebido no exterior com a pompa e a circunstância devidas a líderes nacionais em visitas de Estado.

O Estado de S.Paulo

16 Julho 2014 | 02h05

Antes de vir ao Brasil para a 6.ª cúpula dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que termina hoje em Brasília, onde assinou seis acordos com a presidente Dilma Rousseff, Putin esteve uma vez com os governantes dos países que condenaram a violação da integridade territorial da Ucrânia, em represália à deposição do presidente pró-russo Viktor Yanukovich. Mas foi em um evento protocolar, a comemoração do 70.º aniversário do desembarque aliado na Normandia, na 2.ª Guerra Mundial, em 6 de junho - e o autocrata foi tratado como o parente desagradável que a família só convida por obrigação.

Valha o que venha a valer na vida real, o "aprofundamento da parceria estratégica" entre Brasil e Rússia proposto por Dilma, como se ela já existisse - e o fato de o País reiterar a sua neutralidade diante do conflito na Ucrânia -, conta pontos para Putin achar a saída do isolamento a que foi condenado pelas potências ocidentais. A conflagração, por sinal, não dá sinais de calmaria. Provavelmente para surpresa de Moscou, o novo presidente ucraniano, Petro Poroshenko, que assumiu há pouco mais de um mês, parece ter conseguido prevalecer sobre as forças pró-russas que haviam fincado pé em alguns dos principais centros do leste do país, valendo-se da porosa fronteira com o vizinho com o qual se identificam.

Putin já estava no Brasil, para a final da Copa, quando um míssil ucraniano caiu em solo russo, matando uma pessoa. Bem ao seu estilo, anunciou que o ataque terá "consequências irreversíveis". No dia seguinte, um avião ucraniano de transporte militar foi abatido, segundo Kiev, sobre território nacional. O possível agravamento do confronto entre os dois países - além do imperativo para Putin de dar, como diria Dilma, "a volta por cima" dos danos econômicos e políticos que as sanções causaram à Rússia - faz com que ele busque amigos seja lá onde puder encontrá-los. É o que um diplomata brasileiro, que falou ao Estado sob anonimato, denomina "espaços de intercâmbio internacional".

O mais fecundo deles foi aberto em 21 de maio em Xangai, onde Putin e o seu colega chinês Xi Jinping assinaram um acordo que merece ser chamado histórico, pois levou uma década para ser costurado. De 2018 a 2048, Moscou venderá a Pequim 38 bilhões de metros cúbicos de gás natural. Ótimo para a China, o negócio de US$ 400 bilhões é excelente para a Rússia. Não só pela dinheirama e por reduzir a sua dependência da Europa como mercado importador de insumos energéticos, mas porque uma parceria econômica dessa natureza cimenta as bases de uma aliança política de proporções colossais - percorre o território que vai, a oeste, da fronteira com a Polônia, à borda do Pacífico, a leste; das margens do Báltico à divisa China-Afeganistão.

O eixo sino-russo transfigura a até então irrelevante União Eurasiana, com a Bielo-Rússia e o Casaquistão, para a qual Putin tentou, em vão, atrair a Ucrânia - cuja recusa e preferência pela União Europeia ele jamais perdoará. No encontro de anteontem com Dilma, Putin defendeu alguma forma de enlace da sua união alfandegária, a entrar em vigor em 2015, e a Unasul, o bloco de 12 Estados criado há seis anos, em meio a polêmicas, por iniciativa do então presidente Lula e do venezuelano Hugo Chávez. Mesmo que não consiga que a reunião dos Brics aprove, com todas as letras, medidas para "impedir a caça aos países que discordam de decisões tomadas pelos Estados Unidos e aliados", como declarou antes de viajar, decerto Putin voltará a Moscou com um ar menos sorumbático do que exibiu domingo na tribuna de honra do Maracanã.

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