Que medicina nos espera amanhã?

A relação indevida do público com o privado marcou a História deste país, tornando-se comum em boa parte da sociedade. O modelo universitário não foge desse padrão, levando-nos a questionar o quanto o ensino, a pesquisa e a assistência foram influenciados por esse sistema, e como será o futuro da saúde em nosso país. Vamos aos fatos.

Charles Mady*, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2016 | 03h00

Temos medicina primária que não necessita de minhas críticas. Basta consultar a imprensa diariamente. Essa endemia na saúde, que persiste há décadas, mata milhares de vezes mais que as epidemias virais que hoje nos acometem. Os órgãos oficiais fazem campanhas, muitas vezes demagogicamente, apenas na hora da desgraça, não entendendo, ou não querendo entender, o significado da palavra prevenção, que é o pilar fundamental de qualquer sistema de saúde.

Metade da população não é servida por saneamento básico. Em compensação, a medicina terciária, da qual nos orgulhamos pela qualidade atingida, deveria estar em centros especializados devidamente localizados, espalhados pelo País, de preferência perto de centros universitários, de acordo com as necessidades regionais. Os gastos com tecnologia se reduziriam muito e equipamentos caríssimos não ficariam encaixotados, deteriorando-se, ou em mãos inexperientes, sem condições de ser utilizados. Por que, então, foram encaminhados a esses locais?

Para agravar, a maioria das escolas forma profissionais especializados, geralmente mais interessados em técnicas e métodos, e não em clínica. O contato com o paciente, o ouvir, o olhar, o palpar, o auscultar foram substituídos pelos exames complementares. O indivíduo transformou-se em algo secundário, meio de fazer funcionar uma máquina de produzir dinheiro, pois a medicina se transformou num grande negócio, nas mãos de empresários com enorme poder econômico. Julgo precisarmos mais de ética que de técnica. Mas ética “não dá dinheiro”.

A tecnologia transformou-nos numa tecnocracia dominadora amoral, quando deveria estar a serviço do paciente, com equilíbrio de interesses e necessidades. Ela nos dá poder material que, quando não contrabalançado por um poder intelectual, pode tornar-se destrutiva.

A ciência também é amoral e deve ser digerida pela moral social. Quanto de tecnologia inútil se produz e se utiliza diariamente e quanto de ciência se publica para apenas engrossar currículos, sendo colocadas logo após na biblioteca do esquecimento, das inutilidades, sem colaborar em nada para uma saudável evolução. Quantos artigos médicos, além de aulas e conferências, são fraudados para convencer os menos informados a assumir determinadas condutas? Essa cultura já impregnou as academias médicas e as piores consequências se fazem sentir na qualidade do ensino e da assistência.

Como dizia Karl Marx, os setores que dominam o sistema financeiro, “ao fundarem a produção econômica na exploração da ciência aplicada, e ao monopolizarem em seu proveito as invenções tecnológicas”, caminhariam a passos largos para um domínio sem escrúpulos, amoral, das ciências. O paciente tornou-se um meio, e não um fim. Mesmo não sendo marxista, admiro a antevisão que teve esse pensador. Demorará para sairmos desse padrão, em direção a uma situação eticamente aceitável, pois a mudança depende dos responsáveis por essa situação.

As sociedades médicas deveriam ser mais fortes, e não submissas aos poderes políticos e econômicos, para poderem ditar as regras e servir a todos, sem interesses outros. Fazer da saúde e do ensino a sua finalidade, e não o seu meio, recuperando o poder de decisão do médico e a independência do professor, tomados pelos corporativismos, e livrar a maioria da escravidão exercida pelos poderes vigentes, da “democracia de poucos” que vivemos.

Esses poderes deveriam perder força nos meios universitários, para que a relação da indústria com as academias, fundamental e pouco explorada de forma correta, seja mais saudável, tornando-se, consequentemente, mais produtiva para a maioria. Que as escolas preservem os reais mestres, aqueles que têm como motivo de vida a universidade, não poluídos por fatores externos espúrios. Assistimos à evasão, nas faculdades, de profissionais de altíssimo gabarito, por não concordarem com sistemas impositivos, totalitários, personalistas, que os impedem de desenvolver suas habilidades. Em nome desses pensamentos, defendo uma reforma universitária em que os corpos docentes, com melhores condições de trabalho, e com mudanças culturais, mais vocacionados, pudessem exercer suas atividades acadêmicas com maior dedicação.

Um exemplo de sucesso vivido pelo Incor, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), foi a introdução do conceito de “tempo integral”, no qual havia envolvimento e compromisso de todos com ensino, pesquisa e assistência, tanto pública como privada, em elevado nível profissional, em apenas um centro geográfico compatível com todas essas atividades, com enormes benefícios para o atendimento público, que recebia o que havia de melhor. Infelizmente, esse conceito foi corrompido e destruído por interesses outros e a História se incumbiu de mostrar suas consequências. Realmente, vivemos uma associação maligna de fatos, com resultados evidentes para todos. Deveríamos ir além da simples terapia para os erros pontuais do momento e plantar sementes de um sistema futuro melhor, mesmo que o terreno esteja pantanoso e lamacento.

Como dizia Ruy Barbosa, “há tantos burros mandando em homens de inteligência que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma ciência”. Poderíamos hoje trocar os termos “burros” e “burrice” por espertos desonestos e desonestidade. Caro Ruy Barbosa, além de não ter visto grandes resultados de suas pregações, alguém ainda decide mudar palavras de seus textos. Sinto muito, mas acho que você compreenderia.

*CHARLES MADY É PROFESSOR ASSOCIADO DA FMUSP, É DIRETOR DE UNIDADE DO INCOR

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