Que surpresas 2016 nos reserva?

O ano de 2015 foi muito pior do que o esperado. Para 2016 a expectativa também é ruim. Na minha visita aos EUA, na última semana do ano, só me defrontei com perguntas sobre os desdobramentos da atual crise econômica e política. Voltando ao Brasil, deparo-me com a esperança de alguns de um 2016 melhor que as perspectivas. Parece promessa de fim de ano. Ou talvez a esperança seja mesmo a última que morre. Fico, então, pensando nas possíveis surpresas para este ano. De fato, surpresas positivas são possíveis, mas as mais negativas também. Para avaliá-las resolvi escrever esta lista de surpresas.

ILAN GOLDFAJN*, O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2016 | 03h00

No Brasil quase tudo poderia ser qualificado como surpresa, já que nada parece provável. Mais três anos na atual situação não parecem prováveis, assim como as diferentes rupturas políticas e mudanças econômicas não são fáceis de materializar. Qualquer cenário é de certa forma uma surpresa (por improvável), mas não surpreenderia (por ter sido cogitado, na falta de opções).

No exterior, as surpresas se dividem entre positivas e negativas, e estas últimas preocupam. A fragilidade da situação doméstica é tal que um choque externo negativo poderia levar a um aprofundamento da crise no Brasil com consequências sociais imprevisíveis. A única certeza é que um futuro choque externo levaria a culpa por toda a crise, até mesmo pela situação atual. Um choque positivo, em contraste, daria um tempo precioso para a política/economia local encontrar seu rumo.

Que surpresas poderiam acontecer?

Juros nos EUA. Caso os juros subam bem mais rapidamente que o previsto nos EUA, poderá haver uma reversão rápida dos fluxos de capital em direção a esse país. A saída de recursos do Brasil fragilizaria o balanço de pagamentos, justamente o último alicerce de sustentação da economia brasileira. O governo reagiria vendendo dólares (via swaps ou à vista) para suavizar a situação. Mas a falta de financiamento externo e a depreciação do real aprofundariam a recessão e realimentariam a inflação. Provocariam uma situação ainda mais difícil social e politicamente.

Por sorte, o Fed (o banco central dos EUA), apesar da subida recente de juros, está mais preocupado com o crescimento se consolidar nos EUA do que com a volta da inflação no futuro. Por isso a trajetória de juros implícita nos títulos do mercado tende a ser muito gradual e benigna.

Uma subida mais forte dos juros evidenciaria que o Fed estaria atrasado, a última coisa que o Brasil precisaria neste momento.

O choque inverso também é possível. Uma decepção com o crescimento da economia americana (em linha com a atual e famosa tese da “estagnação secular”) levaria o Fed a ser mais cauteloso com a subida de juros, reduzindo o ritmo e talvez até interrompendo o atual ciclo de alta. A manutenção dos juros nos EUA perto de zero (com o adiamento da normalização da política monetária) prolongaria o incentivo para manter os recursos em ativos de risco com juros maiores. O Brasil se beneficiaria dessa situação, com os capitais permanecendo no País, evitando uma pressão no balanço de pagamentos e ganhando um precioso tempo adicional para ajustar sua economia. Essa surpresa favorável não garante a melhora da situação, mas fornece as condições internacionais e o tempo para que a política e a economia domésticas encontrem seu rumo.

China perde ou ganha o controle. A crise nas economias emergentes, o fim do ciclo de commodities e a desaceleração da China são fenômenos entrelaçados. Caso a China desacelere mais que o esperado, uma nova queda forte das commodities poderá ocorrer, causando nova perda de renda nas economias emergentes. No Brasil, uma nova rodada de queda de commodities depreciaria o câmbio (mais inflação e juros) e tiraria renda da economia. A recessão se aprofundaria, piorando a crise atual. Seria difícil administrar uma nova perda significativa de renda externa na atual fragilidade local.

A China até agora tem administrado a desaceleração de forma ainda ordenada, apesar das dificuldades e da necessidade de rebalancear a economia (para mais demanda interna, mais consumo), além dos receios do mercado. O crescimento do PIB neste ano entre 6% e 7% configuraria a continuidade da estratégia de aterrissagem suave. A prova final seria a estabilidade dos preços das commodities.

A surpresa inversa na China é difícil de enxergar: seria a volta do rápido crescimento de dois dígitos e um novo boom das commodities. Seria a salvação da crise no Brasil, pelo menos no curto prazo. O crescimento viria de fora e melhoraria a arrecadação, o controle sobre o déficit fiscal (e a dívida crescente ganharia um poderoso aliado). Essa surpresa levaria muitos a acreditar que Deus é de fato brasileiro.

Guinadas na política econômica no Brasil. A necessidade de ajuste fiscal e a fragmentação política (que impede a aprovação de reformas e ajustes) continuam sendo o núcleo do problema no Brasil. Uma guinada em qualquer direção nessa questão constitui uma surpresa. Uma guinada para abandonar a necessidade do ajuste fiscal seria o começo do fim, ou talvez o fim do fim. Gastar o que não se tem seria um verdadeiro “expancídio”. Por isso uma guinada irracional (anunciada ou silenciosa) seria uma surpresa.

Uma surpresa positiva seria a capacidade de juntar forças para aprovar as medidas fiscais necessárias, assim como a reforma da Previdência (a idade mínima, por exemplo). Daria um choque de confiança, o que poderia retomar o crescimento.

Lembrei-me agora, no final do artigo, de que surpresas na economia raramente acontecem como imaginamos. As verdadeiras surpresas nos pegam, de verdade, pelo inesperado. Talvez o surpreendente este ano seja a ausência de surpresas. Nesse caso, teríamos o cenário esperado, uma continuação (igual ou pior) de 2015. Tenho a impressão de que isso ninguém quer.

*ILAN GOLDFAJN É ECONOMISTA-CHEFE E SÓCIO DO ITAÚ UNIBANCO

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