Quem roubará a cena em 2016?

Ainda em estado de enlevo após assistir ao belo espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, fui trazido abruptamente à realidade pela manchete de um site brasileiro. A notícia dava conta de que a ex-senadora e ex-ministra Marina Silva havia "roubado a cena" da presidente Dilma Rousseff, presente à festa, ao entrar no estádio carregando a bandeira olímpica na companhia de personalidades escolhidas por sua dedicação à causa da paz.

Paulo Sotero,

31 Julho 2012 | 03h09

É evidente que a participação de Marina Silva na cerimônia nada subtraiu de Dilma nem de ninguém. Ao contrário, acrescentou uma presença virtuosa do Brasil na festa, na pessoa de uma mulher visionária, fundadora do Partido dos Trabalhadores, cujas biografia e trajetória política a projetaram no mundo. O fato de as propostas de Marina para os desafios do desenvolvimento sustentável serem rejeitadas como ingênuas e impraticáveis por muitos não diminui a importância de sua pregação de um modelo de crescimento que concilie a preservação do meio ambiente e da riquíssima biodiversidade brasileira com a exploração racional de nossas riquezas naturais e a expansão da produção de alimentos.

A notícia pôs-me a pensar no show que abrirá os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, daqui a quatro anos. Não será por falta de história, de personagens que habitam nosso imaginário coletivo e de senso de humor que deixaremos de brindar o mundo com uma celebração de encher os olhos e alegrar os corações. Somos um povo alegre e acolhedor. Temos nossos McCartneys e Rowllings, para não falar da maravilha de cenário que a antiga capital da República oferece para o evento olímpico, apesar de todos os pesares.

O tamanho e a complexidade do desafio certamente não intimidarão uma cidade que em todo carnaval se transforma em palco e plateia de um festival de operetas ambulantes, cada uma delas com milhares de personagens que se movimentam pontualmente com vigor e graça em meio a gigantescos cenários, numa demonstração de competência e talento que desmente a noção segundo a qual nosso povo é desorganizado. Sim, seremos constantemente avaliados nos próximos quatro anos pela forma como nos desincumbiremos do compromisso de aprontar as obras e os sistemas necessários para a Olimpíada. Assim como ocorreu antes dos Jogos de Londres, e de todos os anteriores, a imprensa levantará dúvidas - e é bom que o faça - sobre o andamento dos preparativos, a lisura dos contratos, o custo do empreendimento e se este valerá a pena.

Mas o dia chegará, em julho de 2016, quando tudo isso ficará no passado. Teremos, então, de ter decidido como usaremos a oportunidade única que a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos oferece ao país hospedeiro, sobretudo um país estreante nesse papel, para se apresentar ao mundo. O que contaremos sobre o nosso país ao mais de 1 bilhão de pessoas que assistirão a um evento imaginado como o début global de um Brasil emergente, quando, emocionados, comemoramos a decisão do Comitê Olímpico Internacional de dar ao Rio o privilégio de organizar os Jogos? Qual será o tom da festa? Somos bons na autoexaltação (temos até Praça da Apoteose), mas igualmente fortes na autocrítica, que às vezes descamba para a autoflagelação. A dificuldade, frequentemente ilustrada pela fala dos políticos, e não apenas a deles, é encontrar o meio-termo.

A cerimônia de Londres apresentou ao mundo a Grã-Bretanha pós-imperial misturando realidade e fantasia, História e cultura, passado, presente e futuro, tudo temperado com boas doses de humor britânico pelo diretor artístico do evento, Danny Boyle, com a ajuda da própria rainha, na cena com Daniel "James Bond" Craig. O quadro sobre a Revolução Industrial, talvez a maior contribuição da Grã-Bretanha ao mundo, retratou opressão e progresso. A cena em que enfermeiras apareciam cuidando de crianças, com a ajuda de dezenas de Mary Poppins caídas do céu, que causou perplexidade a um colunista brasileiro, celebrava, em tempos de austeridade e governo conservador, o Serviço Nacional de Saúde, uma instituição pública pela qual os britânicos têm enorme apreço e que se orgulham de exibir ao mundo. Boyle confirmou a mensagem política da cena: "Um dos valores centrais de nossa sociedade é que, não importa quem você é, todos recebem o mesmo tratamento em matéria de saúde".

Um comentarista brasileiro escreveu que gostou mais da abertura dos Jogos de Pequim, em 2008. Gosto não se discute. Mas o exemplo chinês é de pouca valia para nós. Somos, como os ingleses, ocidentais. Vivemos numa sociedade multirracial e democrática, sempre às voltas com crises e tropeços. Os Jogos de Londres começaram sob o impacto do agravamento da recessão econômica na Inglaterra e do indiciamento criminal de dois amigos pessoais do primeiro-ministro David Cameron, um deles seu ex-assessor de Comunicação, por causa de um escândalo produzido pela imprensa marrom - também uma instituição britânica. A economia e os nossos políticos não deixarão de nos dar desgostos semelhantes nos próximos quatro anos.

Mas chegará o dia de abrir os Jogos e contar ao mundo, num espetáculo de três horas, quem somos, de que e de quem nos orgulhamos como nação. Qual será o nosso enredo? Não nos faltam diretores talentosos. Com plena liberdade de criação, eles saberão exibir nossas virtudes e nossos desafios, celebrar a esperança que nos move e a diversidade étnica, cultural e política que motiva e dá força à transformação que o País vive há três décadas. Nesse enredo cabem os pobres e o Bolsa-Família, Machado de Assis e Paulo Coelho, as passistas do samba e a Lei Maria da Penha, Marina Silva e Blairo Maggi, a corrupção e a Ficha Limpa, a Emília e o Saci-Pererê. A alternativa é deixar-se pautar pela preocupação de evitar contrariedade em Brasília e permitir que nos roubem a cena.

* JORNALISTA, É DIRETOR DO BRAZIL INSTITUTE DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, EM WASHINGTON

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