Quem socorre Cristina Kirchner

Com a popularidade em franco declínio, cada vez mais distante do sindicalismo às vezes selvagem que sustentou o governo anterior - chefiado por seu marido Nestor - e a ajudou a vencer duas eleições presidenciais, sem recursos para assegurar o apoio irrestrito dos governadores provinciais e às voltas com problemas econômicos crescentes, a presidente argentina, Cristina Kirchner, deve ter regressado a Buenos Aires um pouco mais reconfortada depois do encontro do G-20 em Los Cabos, no México.

O Estado de S.Paulo

22 Junho 2012 | 03h09

Não porque ela tivesse sido poupada por governantes de países prejudicados por recentes medidas intervencionistas e protecionistas que colocou em prática. Como previsto, essas medidas foram criticadas pelo primeiro-ministro britânico, James Cameron, e pela delegação espanhola chefiada pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy, entre outros. Seu alívio se deve ao fato de que, mais uma vez, obteve a generosa solidariedade da presidente Dilma Rousseff e o apoio explícito do governo brasileiro na defesa de algumas de suas políticas criticadas pelos demais países.

Depois de acompanhar a reunião de Cristina e Dilma em Los Cabos, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Héctor Timerman, declarou à imprensa de seu país "que houve coincidência entre as presidentes de manter uma posição conjunta no G-20 em favor das políticas de crescimento e desenvolvimento". É uma forma enviesada de dizer que as duas presidentes sul-americanas defenderam, diante dos líderes do G-20, as políticas de forte conteúdo protecionista que seus governos vêm adotando para combater os efeitos da crise mundial e estimular as economias de seus países.

No fim de maio, as investidas protecionistas da Argentina contra produtos importados foram denunciadas à OMC pela União Europeia - segundo maior mercado para produtos argentinos -, sob a alegação de que essas medidas já causaram "dano real" à economia da Europa.

Danos maiores podem estar sofrendo países com os quais a Argentina tem comércio mais intenso, como os demais integrantes do Mercosul - maior comprador de produtos argentinos -, em particular, o Brasil. No entanto, embora a economia brasileira esteja sendo tão ou mais prejudicada que a da Europa, tem sido de tolerância o comportamento do governo brasileiro em relação às medidas que o governo Kirchner vem adotando para conter as importações.

Sob críticas cada vez mais intensas dos setores empresariais prejudicados, o governo Dilma tem aceitado as agressivas medidas comerciais do governo Kirchner contra produtos brasileiros. Agora, parece disposto a, mais do que aceitar, apoiar e aplicar novas medidas protecionistas a serem definidas em conjunto com a Argentina e os demais parceiros do Brasil no Mercosul.

Na reunião de chefes de governo do Mercosul que se realizará na cidade argentina de Mendoza no dia 28, deverão ser aprovadas medidas protecionistas contra países fora do bloco. Discutida há um ano na reunião de cúpula do Mercosul realizada no Paraguai, a ideia de aumentar o número de produtos que podem ter a tarifa de importação elevada a 35%, a alíquota máxima autorizada pela OMC, voltou a ser debatida na reunião de cúpula de Montevidéu, em dezembro. No entanto, nada foi decidido até agora. A elevação de alíquota deverá ser aprovada na reunião de Mendoza.

Ainda se discute o número de itens que terão a alíquota de importação elevada até o limite permitido pela OMC. A lista poderá variar de 100 a 400 produtos. Também está em discussão o critério de aplicação da nova alíquota, se será uma lista única para todos os países do bloco ou se cada um terá uma lista exclusiva com 100 produtos. O que está decidido é que a alíquota para a importação desses produtos passará da média de 12% a 13% para 35%.

Quanto mais medidas como essas tomarem os países do Mercosul, maiores serão as reações dentro da OMC e os estímulos para que os demais países reajam de maneira semelhante.

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