Quem tem medo da verdade?

É preciso demonstrar a relação entre marajás fora da reforma, mais impostos e desemprego

*Fernão Lara Mesquita, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2017 | 03h04

Aposentadorias e “Benefícios de Prestação Continuada” (BCPs) pagos a funcionários “incapacitados” representam 54% do gasto da União. A folha do funcionalismo ativo, outros 41%. Sobram 5% para financiar todos os investimentos públicos. Nos Estados e municípios é tal a fome dos marajás que nem para pagar a parcela do funcionalismo que, bem ou mal, de fato “serve” ao público tem sobrado.

A carga de impostos é de 36% do PIB e o déficit, de pelo menos outros 10%. São 46% do PIB, mais de R$ 2,5 trilhões, apropriados anualmente pelo Estado, R$ 2 trilhões e 375 bilhões dos quais (95%) consumidos com salários, aposentadorias, pensões, bolsas e quejandos. Um oceano dentro do qual tudo quanto se roubou em todos os anos investigados pela Lava Jato e, provavelmente, nos séculos 20 e 21 somados, ou talvez, até, de 1500 até hoje, vira uma gota ou, vá lá, um balde d’água.

Não é preciso mais nada para explicar por que estamos arrebentados. Um simples olhar para as parcelas dessa conta basta, também, para tornar instantaneamente lógica a aparente confusão política em que vivemos. Quinze dias atrás Marcos Mendes e Mansueto Almeida, secretário de Acompanhamento Econômico da Fazenda, publicaram na Folha de S.Paulo extenso artigo destrinchando aspectos centrais da reforma da Previdência. Todo servidor se aposenta com 100% do que ganhava no último dia de trabalho, coisa inédita no mundo. (Na verdade, costumam ter uma ou duas “promoções” pouco antes de cruzar a linha aos 50 anos.) Com 30 anos ou mais pela frente de puro desfrute, camadas sucessivas se vêm acumulando. Todas essas aposentadorias têm sido “reajustadas” muito acima da inflação junto com os salários dos servidores ativos (estes com aumentos contratados até 2020, no meio do pânico do resto do Brasil). Já os súditos no País real “se aposentam” com 70% do último salário (que paga imposto a partir de R$ 2 mil e pouco) e continuam trabalhando até morrer, pois se já viviam no limiar da miséria com 100%, que dirá com 70%. Essa situação é tão generalizada que o governo está criando o Regime Especial para o Trabalhador Aposentado, isentando o trabalho na velhice de alguns impostos. Aposentadoria “por tempo de serviço” aos 50 anos é, portanto, um luxo exclusivo dos donos do Estado. A maioria se aposenta antes disso, aliás, graças aos “regimes especiais”, mais uma das inúmeras formas de roubo legalizadas com que nos sangram, exatamente semelhante aos “auxílios” e outros apelidos que dão a pedaços do salário para aumentá-lo além do teto e sonegar imposto, só que aplicado ao tempo contado para se aposentar.

Pensões por morte são outro luxo hereditário exclusivo do marajalato. Custam 3% do PIB no Brasil, quando o padrão mundial é abaixo de 1%. 32% dessas pensões são pagas a funcionários que já recebem aposentadoria. 73% vão para apenas 30% dos domicílios, todos na categoria dos de maior renda do Brasil. O gasto com “Benefícios de Prestação Continuada” pagos a “incapacitados”, valendo em média dez Bolsas Família cada, cresceu de R$ 14 bilhões em 2003 para R$ 49 bilhões em 2016. A maior parte foi conseguida por ação judicial, dispensando, portanto, a evidência de dedos ou membros faltantes ou outras deficiências perceptíveis a olho nu. Só juízes, mais de 10 mil dos quais recebem acima do teto constitucional e, frequentemente, salários acima de seis dígitos, e “peritos judiciais” foram capazes de “enxergá-las”. 43% dos BPCs pagos vão para a faixa dos 40% mais ricos do Brasil.

Vai por aí o escárnio e, por essas e outras, a maioria dos servidores públicos federais está na faixa dos 1% mais ricos do Brasil e quase nenhum está aquém dos 5% mais ricos. Isso antes de contar as frotas de jatos, as dezenas de milhares de automóveis, os planos de saúde eternos e as mordomias mil que a favela paga para os palácios.

Uns poucos, muito poucos, entre esses abusos seriam coibidos pela reforma da Previdência proposta por Michel Temer, que, por ter ousado tanto, está, com todos os seus “negociadores” de reformas no Congresso, varejado de delações e a um passo de ser apeado da Presidência.

O problema brasileiro é “biodegradável”. Expostos os dados ao sol, a única resposta decente, a única resposta aritmeticamente possível, impõe-se por si só. A sobrevida da “privilegiatura” depende estritamente, portanto, de mantê-los escondidos sob uma barragem o mais ruidosa possível de mentiras. Não é por outra razão que a luta pelo poder se tem resumido à luta pelo controle dos meios de difusão de “narrativas”, o novo nome da mentira, seja pela martelação da discurseira sem contraditório daquela gente sinistra dos “horários gratuitos”, seja pelo “aparelhamento” de escolas e redações. Agora querem dar o golpe final fechando o último canal de expressão sem “tradução” da voz do povo com essa “lista fechada”.

Meu coração tem tentado, mas meu cérebro se recusa a se convencer de que é apenas ingênua e distraída essa Justiça sem prioridades que, sempre em perfeita afinação com a imprensa e consonância com o trâmite das reformas, arregala um olho para ladrões individuais de milhões, porém sistematicamente fecha os dois para a ladroagem coletiva de trilhões sem o fim da qual o Brasil não se salva.

O passado condena? Pode ser. Mas a verdade é que Temer não pode dizer a verdade num país onde ninguém mais diz a verdade. Como não é dele, é do Brasil que se trata, é preciso lançar uma campanha impessoal para demonstrar, sem eufemismos, a relação direta de causa e efeito entre cada marajá excluído da reforma e cada aumento de imposto, e entre cada aumento de imposto e cada emprego a menos. O Brasil precisa ser instado a fazer as escolhas que lhe restam sabendo claramente o que pode ser trocado pelo quê; quanta dor adicional e quanto alívio podem ser contratados pelo mesmo dinheiro escasso. Sem isso fica fácil demais para lobos se apresentarem como cordeiros e bandidos como mocinhos enquanto nos empurram todos juntos para o ponto de onde não há retorno.

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