Quinta-feira negra

Como se fosse uma nova quinta-feira negra, os mercados financeiros de todo o mundo viveram ontem um dia de pânico excepcionalmente descontrolado. Nenhum novo desastre havia ocorrido nos países do mundo rico atolados na dívida pública e muito próximos da insolvência. Tudo se passou como se a percepção do perigo se houvesse aguçado de um dia para outro e todas as bolsas mergulharam, de repente, num salve-se quem puder. De manhã, especuladores correram em busca do ouro, levando a sua cotação ao recorde de US$ 1.684,90 por onça-troy. Horas depois o preço recuou, porque os investidores foram forçados a vender o metal para cobrir margens e enfrentar perdas nos mercados de ações.

, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2011 | 00h00

Talvez nenhum outro episódio sintetize tão bem quanto esse a experiência de medo e desordem em um único dia. As tentativas do Banco Central Europeu (BCE) de socorrer os bancos e aliviar a pressão sobre alguns países foram insuficientes para restabelecer a calma.

Dois dias antes o mundo havia escapado de um calote do Tesouro americano - mas não do risco de uma nova e penosa retração econômica dos Estados Unidos. Em seguida, a insegurança em relação à economia americana somou-se ao renovado e intensificado temor diante das dificuldades fiscais da Itália e da Espanha, países grandes demais para ser socorridos pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira.

Na manhã desta quinta-feira o BCE e o Banco da Inglaterra anunciaram a manutenção dos juros básicos em 1,5% e 0,5%, respectivamente. Além disso, o Banco da Inglaterra decidiu prosseguir no programa de compra de títulos no valor de £ 200 bilhões. A novidade mais importante foi a nova intervenção do BCE, leiloando empréstimos a instituições financeiras e absorvendo bônus da Irlanda e de Portugal. As intervenções foram inúteis. Ações de bancos caíram em todas as grandes bolsas europeias. Os papéis do Barclays caíram 7,7%. Os do Lloyd"s, 10%. Os do Commerzbank, 6,1%. A lista de perdas foi longa. No fechamento, os índices das bolsas europeias haviam caído entre 3,23% (Milão) e 3,9% (Paris). O Dow Jones, da Bolsa de Nova York, recuou 4,31%.

O pânico estendeu-se aos mercados de commodities, por causa das perspectivas de recessão. Em Nova York, no começo da tarde, os contratos futuros de petróleo eram negociados com queda de 3,99%.

O temor dos investidores era alimentado tanto pelas dificuldades fiscais das grandes economias endividadas - a começar pela americana - como pela sucessão de más notícias sobre o emprego e o consumo nos Estados Unidos e na Europa. Notícias de problemas continuavam chegando também do Japão, onde o governo havia anunciado novas medidas contra a valorização do iene, uma grave ameaça a uma economia muito dependente das exportações. Mas ninguém poderia esperar, depois dos desastres naturais deste ano, uma contribuição japonesa para a recuperação mundial.

Desde a superação da primeira fase da crise, o mundo nunca esteve tão perto de um segundo mergulho na recessão, profetizado mais de uma vez por economistas conhecidos por suas avaliações pessimistas. Até agora essa hipótese foi descartada em todas as projeções divulgadas pelas grandes instituições financeiras multilaterais. Mas os fatores de risco se avolumam e o grau de cooperação entre as grandes potências capitalistas - Estados Unidos, Europa e Japão - é muito mais baixo, neste momento, do que nas primeiras fases da recessão iniciada em 2008.

O mercado brasileiro também foi abalado pela onda de pânico. Nesta quinta-feira, o Ibovespa oscilou durante o dia todo em território muito negativo, com recuo sempre maior que 4%, e acabou caindo 5,72%. Nenhuma outra grande bolsa teve um desempenho tão ruim.

O governo reconhece a gravidade do quadro internacional. O Brasil, segundo as autoridades, está preparado para qualquer novo impacto. Seria preferível um pouco mais de preocupação. O governo terá pouco espaço em suas contas para uma política anticíclica, porque o orçamento está muito comprometido com despesas improdutivas e as pressões inflacionárias ainda são consideráveis. Faltou preparação para enfrentar uma nova fase de turbulência.

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