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Rômulo Bini Pereira ,
O Estado de S.Paulo

27 Abril 2015 | 02h03

Marechal Emílio Mallet, 1866

Na minha geração, jovens do interior do País aprendiam a nadar em rios de sua região. Fossem caudalosos ou não, os maiores perigos enfrentados na aprendizagem estavam nos redemoinhos. Os de menor porte era fácil eliminar, mas os demais, pela enormidade da força e da velocidade que atingiam, era difícil anular. Aprendi que, se fosse lançado um objeto de grande porte no centro eles - por exemplo, um toro seco -, o equilíbrio circular de seus movimentos era interrompido e o remanso se estabelecia no leito do rio.

Essas lembranças da juventude surgem a propósito da grave crise político-institucional que assola o País e, pela sequência de novos fatos negativos, se torna um imenso redemoinho de final imprevisível. Será que não existe um toro seco para eliminá-lo e permitir ao País retornar ao seu leito normal? Os três Poderes da União poderiam executar esse papel salvador?

O Legislativo, com pomposo protagonismo neste início de mandato, já demonstra arrefecimento em suas atitudes. E não só pela inclusão de parlamentares e dos dois presidentes das Casas como beneficiários de supostas propinas, para não citar o constrangedor episódio dos mamíferos roedores em audiência da CPI da Petrobrás. A deterioração de seu relacionamento com o Executivo impôs a indicação de um novo coordenador político, o vice-presidente, que terá sua missão muito facilitada. Há, segundo os órgãos de imprensa, milhares de cargos de confiança a distribuir em áreas governamentais. Será um processo de barganha em que predominarão interesses partidários, ideológicos e até pessoais. Será um voto de cabresto no mais alto nível. A radicalização política e ideológica e os métodos de aliciamento não permitirão que o Legislativo seja um toro seco salvador.

O Judiciário, após o processo do mensalão e, agora, com a Operação Lava Jato, volta a ser a esperança dos brasileiros, como uma instituição que poderá diminuir a velocidade deste redemoinho. Integram seus quadros homens honrados - como o juiz federal Sergio Moro e sua equipe - que não permitirão que este país se desmantele.

Cabe, contudo, uma ressalva. O processo jurídico dessa operação deverá ser finalizado no STF. Nas recentes manifestações populares o nome do ministro Toffoli esteve em evidência, por uma razão mais que justificada. Sua designação para presidir os julgamentos da Lava Jato foi considerada uma afronta ao princípio jurídico da isenção. O seu intestino relacionamento com o PT poderia conduzi-lo a atender a interesses outros que não os da Justiça. Decepções e frustrações nesses julgamentos aceleraram a velocidade das águas do redemoinho.

O Executivo atingiu um patamar negativo de aceitação pelo povo brasileiro e reverter esse quadro não será fácil. O descrédito observado teve origem na campanha eleitoral da atual presidente. As promessas e afirmações feitas mostraram-se falsas após sua eleição, pois o objetivo maior era sua permanência no poder. A mentira, diz a sabedoria popular, é o maior passo para o descrédito de um chefe, e no Brasil a atitude de "afastamento" adotada pela presidente agrava o atual quadro de desgoverno no País. Sua presença em público tem sido evitada, a não ser em atos e movimentos ditos sociais promovidos por MST e CUT, exércitos do comandante em chefe, o ex-presidente Lula.

A esperança de um possível toro seco que venha serenar este crítico momento é o ajuste fiscal preconizado pelo ministro da Fazenda. Conciliar cortes com o feitio populista de distribuição de benesses deste governo será o grande desafio. Um amargo remédio de difícil ingestão.

No momento as Forças Armadas estão em evidência em razão da surpreendente solicitação de intervenção militar observada nas manifestações populares de março e abril. Aos militares da reserva pergunta-se invariavelmente o que farão as Forças Armadas diante dessa ameaça de desestruturação do País. Por terem vivenciado o período do regime militar, respondem sem querer polemizar, mas com uma boa dose de ironia e irreverência: "Nada! Quanto a nós, só estamos observando, sem nos esquecermos de que, quando veio o Zepelim, fomos a Geni durante 30 anos e não desejamos mais sê-la!".

De fato, nestes anos as Forças Armadas e o regime militar foram acusados de malefícios de toda ordem. Até nos dias atuais os problemas que surgem são creditados à "ditadura militar". Um modo fácil de fugir de responsabilidades. Mas é interessante observar que desde a década de 1990 as Forças Armadas estão no topo de credibilidade junto ao povo brasileiro. Talvez por representarem o oposto da imoralidade, falsidade e corrupção do momento presente, assinaladas nas manifestações populares. A melhor resposta militar vem justamente dos três comandantes das Forças, que asseguram, com clareza e acerto, o respeito integral aos artigos da nossa Constituição. Um toro seco, provavelmente, não mais serão. Nas recentes comemorações do Dia do Exército seu comandante declarou com muita propriedade que a Força Terrestre será sempre democrática, apartidária e inteiramente dedicada ao serviço da Nação. Com o devido respeito, acrescentaria: "Sempre vigilante para que regimes espúrios não se apossem de nosso país".

O redemoinho que aqui se formou poderá conduzir a Nação a uma instabilidade institucional se soluções de caráter ideológico, contrárias a um Estado Democrático de Direito, forem efetivadas, como preconiza o Foro de São Paulo. A adoção de princípios chavistas-bolivarianos e de uma "democracia" populista e totalitária são claros objetivos dessa organização gramscista e orientadora do partido que nos governa.

É por isso que nossas Forças Armadas - as grandes avalistas da democracia nacional - deverão estar em perene vigilância, tendo em mente não apenas o lema do marechal Mallet, mas também o clamor que se fez ouvir em uníssono nas ruas: "Nossa bandeira não é vermelha, é verde-amarela!".

*Rômulo Bini Pereira é general de Exército R/1 e foi chefe do Estado-Maior da Defesa 

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