Reduz-se a migração interna

Um dos aspectos mais relevantes do crescimento econômico recente do Brasil é a redução do fluxo migratório do Nordeste para o Sudeste. Isso em parte se deve a programas sociais, como o Bolsa-Família, que, sem dúvida, retêm pessoas em seus municípios de origem. Mas o principal fator responsável pelas decisões de milhares de pessoas de permanecer na região é a geração de empregos no Nordeste, como mostra estudo feito pelo economista Fábio Romão, da LCA Consultores.

, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2010 | 00h00

A migração do Nordeste para o Sudeste diminuiu significativamente. Entre 1992 e 2002, o Nordeste perdeu 1,5% de sua população, por ano, para o Sudeste. Já de 2002 a 2007, a taxa anual caiu para 0,98% e, em 2008 e 2009, não passou de 0,85%. E não são poucos os nordestinos que migraram para os grandes centros do País e estão retornando a seus Estados natais. Há razão para isso, uma vez que, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, as únicas regiões que registraram aumento do emprego formal de 2008 para 2009 foram a Norte (40%) e a Nordeste (12%).

Evidencia-se, portanto, que a expansão econômica do País não é um fenômeno localizado, mas vem se espraiando. Essa evolução contribui, certamente, para a redução dos desequilíbrios regionais de desenvolvimento, que constituem um dos mais graves problemas nacionais. Em ciclos anteriores de expansão, esse descompasso se acentuou, uma vez que os maiores polos industriais do País estão localizados no Sudeste, onde também se situam os maiores mercados. Programas destinados a corrigir essa distorção por meio da concessão de incentivos fiscais tiveram algum efeito, mas muito menor do que o impulso que vem sendo dado à economia nordestina pelo aumento da renda e pelos efeitos multiplicadores de investimentos na área de turismo e na infraestrutura, como os que vêm sendo feitos no Porto de Suape, em Pernambuco, e na Ferrovia Transnordestina.

Como constatam os comerciantes locais e as empresas de varejo de massa que expandem suas redes pela região, o mercado consumidor do Nordeste teve um crescimento inédito. Segundo o economista Fábio Romão, "o crescimento sustentado da economia, que gerou aumento da formalização do emprego no Nordeste, e o ganho real do salário mínimo, que indexa quase a metade dos salários dos trabalhadores, explicam a desaceleração do fluxo migratório".

É, no entanto, a construção civil, caracterizada pela grande absorção de mão de obra, que tem atuado como a maior retentora de migrantes. De acordo com o Sindicato da Construção Civil da Bahia, de janeiro a agosto deste ano a construção civil contratou naquele Estado 25.526 trabalhadores, mais do que em todo o ano passado, com a multiplicidade de prédios residenciais e comerciais, shopping centers e obras ligadas à realização da Copa do Mundo de 2014, como mostrou o Estado (10/10).

O mais rápido desenvolvimento do Nordeste é, sem dúvida, benéfico para o País como um todo e resulta em menor pressão social na Região Sudeste. Mas não deixa de causar problemas. O fluxo contínuo de nordestinos tem servido há décadas como reserva de mão de obra de São Paulo e dos centros mais desenvolvidos do País. Com a diminuição de migrantes, há escassez de mão de obra no Sudeste na construção civil, diretamente afetada pela menor migração, uma vez que 20% dos nordestinos vêm para trabalhar nessa área. Outro setor que não está conseguindo preencher novas vagas é o de supermercados, onde também é forte a presença de trabalhadores migrantes.

Essa situação mostra a especial importância que tem a integração ao mercado de trabalho de novos contingentes de trabalhadores, que já vivem na periferia dos grandes centros e que não encontram emprego devido ao seu baixo nível de escolaridade. Ou seja, o Brasil pode avançar muito mais, gerando mais empregos, se for capaz de incorporar ao mercado de trabalho os milhões hoje marginalizados por falhas gritantes no ensino fundamental.

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