Restos a pagar

A violência devia estar no topo da agenda de um país onde se morre mais do que na guerra

*Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2017 | 03h05

O fim de ano coincide com a divulgação do número de assassinatos no Brasil, nos primeiros 15 anos do século 21: 278.839. Mais do que a Síria, que vive uma longa guerra.

Anualmente são assassinadas 60 mil pessoas. A cada dez minutos alguém perde a vida pelas mãos de outro.

Essa mortandade dispersa passou ao largo da agenda política brasileira. Lembro-me de que, no início do processo de democratização, o foco voltou-se para os direitos humanos.

Em São Paulo, foi criada a Comissão Teotônio Vilela, da qual fiz parte. No Rio, Brizola implodiu o presídio da Ilha Grande.

A visão dominante na época tendia a considerar o crime nas ruas do Brasil como consequência direta da desigualdade social, da aspereza da vida nos bairros pobres. Mas os números indicam que países ainda mais pobres que o Brasil têm índices menores de assassinatos. É preciso mais que políticas sociais.

Uma projeto nacional de segurança, monitorado diretamente pelos presidentes que mais ficaram no cargo, Fernando Henrique e Lula, nunca veio à luz. Suponho que exista uma certa tendência aristocrática a considerar o fato policial algo secundário diante dos grandes temas do País.

Os jornais de qualidade, no passado, estruturavam seu trabalho como se fossem uma réplica do próprio governo, com suas pastas ministeriais: política, relações exteriores, economia e agricultura. Havia setor policial, com legendários repórteres, mas era de longe um setor secundário. Não dava o que pensar. Era como se multiplicassem pequenas tragédias, o que desde os gregos parecia algo integrado ao destino humano.

No momento em que se esgota o período inicial da democratização, o abismo entre a gravidade da violência no Brasil e seu lugar na agenda brasileira cresceu enormemente.

Estamos no limiar do ano novo, em que as eleições prometem ser o tema central. Com vários pré-candidatos em cena, a questão da violência ainda passa ao largo, exceto para Jair Bolsonaro, que enfatiza sua importância. Suas propostas, no meu entender, tocam num tema inescapável: como envolver a sociedade na autoproteção, como descentralizar uma tarefa maior que o Estado?

A resposta de Bolsonaro para esse tópico é legalizar o porte de arma, ampliando a capacidade de defesa individual. É um caminho seguido nos EUA, certamente confirmado nas urnas com a vitória de Trump. Mesmo lá é cotidianamente combatido, pela sucessão de massacres cometidos por atiradores isolados.

O mesmo princípio de envolvimento social levaria ao uso de outras armas que não as de fogo: a informação e uma intensa troca entre polícia e sociedade. Sempre que falo dessa tema, os defensores das armas contestam: que fazer num assalto, com um smartphone na mão?

Possivelmente, nada, a não ser configurá-lo antes para ser rastreado e oferecer a pista à polícia. Mas em outras situações, a capacidade de prevenir por meio de avisos, mapas e dados que brotam da interação permanente pode salvar muitas vidas.

Se é para falar em experiência americana, a mais útil no Brasil seria a de estimular iniciativas da sociedade, até independentes do governo. Nossa expectativa de que o governo resolva sozinho é mais parecida com a tendência europeia.

Para alcançar esse projeto de cooperação será preciso uma longa marcha através de uma cultura que desconfia da polícia e romantiza o crime. Certamente isto tem raízes em nossa História colonial. Não foi à toa que Dilma sacou Joaquim Silvério dos Reis, o traidor da Inconfidência Mineira, para compará-lo aos delatores da Lava Jato. É um absurdo igualar uma luta de libertação nacional ao assalto à maior empresa pública do País. Mas ela escolheu a imagem pelo seu conteúdo emocional.

Claro que essa cultura tem também alguma referências concretas: a qualidade da polícia. Transplantada dos EUA para o Brasil, a campanha antidrogas nas escolas, feita com palestras de policiais, é uma experiência que não funcionou bem. Os policiais brasileiros não despertavam a mesma empatia nos estudantes.

Mas se o argumento para não cooperar está baseado na qualidade da polícia, por que não dar uma volta nele e perguntar: o que vem primeiro, a baixa qualidade da polícia ou a subestimação cultural do seu papel?

Os países em guerra põem esse tema no topo da agenda, entre outras razões, porque morre muita gente. Se esse argumento tem algum peso, a violência deveria estar no topo da agenda nacional num país onde morre muito mais gente do que na guerra.

A diferença é que na guerra as pessoas se organizam para matar. Aqui alguns se organizam em quadrilhas e em grande parte os assassinos são indivíduos atomizados. Matam as outras vivendo sob a mesma bandeira nacional, às vezes no mesmo bairro ou o sob o mesmo teto. Vivemos uma guerra visceral.

Os contornos da campanha de 2018 ainda são muito difusos. Se o tema da segurança pública for tratado com a formalidade burocrática típica dos nossos programas políticos, os candidatos farão discursos para um País imaginário.

A experiência dos últimos anos nos desgastou muito. Brigas, ofensas, isso enfraquece a possibilidade acordos nacionais em alguns temas.

Em segurança pública, reconheço que é difícil um acordo com forças que romantizam o crime e veem na polícia um instrumento de opressão das classes dominantes. Se também aí não for possível um acordo nacional, que nossa geração de políticos, cujo ciclo se encerra, ao menos reconheça o fracasso retumbante num tema: o saneamento básico. Esquerda, direita, centro, estamos todos na mesma m...

Avançar numa tarefa que alguns países alcançaram ainda no século 19 é algo que dispensa mimimis, estrelismos e bate-bocas: seria uma maneira digna de encerrar um período cuja etapa derradeira foi uma distância abissal entre sistema político e sociedade.

*Jornalista

 

 

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