Retrocesso na Cracolândia

Com todos os problemas que já tem e que o poder público não consegue resolver - e por isso a situação ali se arrasta há anos -, o pior que poderia acontecer à Cracolândia é que a isso viesse se somar a falta de entendimento entre os governos municipal e estadual. Pois foi o que aconteceu na quarta-feira entre a Guarda Civil Metropolitana (GCM) e a Polícia Militar (PM), cujos movimentos sem coordenação, na desmontagem da chamada "favelinha" erguida na região, acabaram resultando em confronto que deixou pelo menos dois feridos.

O Estado de S.Paulo

02 Maio 2015 | 02h04

Segundo informações de integrantes da GCM, a expectativa era de que a retirada dos barracos dos dependentes de crack ocorreria sem resistência e, por isso, foi previsto que a ação para tal contaria apenas com a ajuda do efetivo da PM estacionado no local. Essa previsão não se confirmou e os ânimos se exaltaram tão logo a operação começou. Em outras palavras, não houve a preparação e o planejamento necessários para o desmonte da "favelinha" por parte dos vários órgãos da Prefeitura envolvidos na questão - dos de segurança aos de assistência social.

A reação dos dependentes, que puseram fogo em montes de lixo na rua e usaram pedras e pedaços de pau para tentar evitar a remoção de seus abrigos precários, fez com que fosse pedido reforço à PM. Para restabelecer a ordem e possibilitar a conclusão da operação, a Tropa de Choque teve de agir com energia e jogar bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. O tumulto e o temor de que a situação escapasse do controle levaram à Cracolândia vários secretários - Luciana Temer (Assistência Social), Eduardo Suplicy (Direitos Humanos), Arthur Henrique (Trabalho) e Ítalo Miranda (Segurança Urbana). A operação, que começou de manhã, só foi terminar à noite.

O objetivo, segundo o comandante da GCM, Gilson Menezes, foi "fazer um trabalho de reorganização do espaço público e apreender as barracas e os carrinhos de grande porte onde as pessoas guardam drogas e armas". Portanto, era mesmo preciso desmontar a "favelinha". Na verdade, sua montagem deveria ter sido impedida desde que começou. Ou melhor, recomeçou, porque ela já havia sido montada e desmontada antes. A Prefeitura pagou pelo erro de não ter cortado o mal pela raiz, pois nada justifica tolerar favela, grande ou pequena, em pleno centro da cidade, e ainda com aquelas características apontadas por Menezes.

Outro erro evidente foi a Prefeitura não combinar a ação com o governo do Estado. O secretário estadual de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, tem razão em suas queixas a respeito disso. Diz ele que o que tinha sido acertado num primeiro momento é que a Prefeitura faria o cadastramento do pessoal da "favelinha" e seria montada em conjunto uma operação para recolher as barracas e as lonas, mas a Prefeitura se antecipou e a Secretaria não foi avisada.

Esse entendimento não só é sugerido pelo mais elementar bom senso, como também se impõe em decorrência de um acordo de cooperação firmado no começo do ano por Moraes e pelo prefeito Fernando Haddad, com o objetivo de coordenar os serviços de informação da Prefeitura e do Estado para reunir dados sobre os traficantes que operam na Cracolândia. Com isso se pretende, como disse Moraes na ocasião, impedir, tanto quanto possível, a chegada de drogas a essa região. Nesse contexto, não faz o menor sentido a Prefeitura agir sem o devido entrosamento com a PM nessa importante questão do desmonte da "favelinha".

Em vez de tratar diretamente desse desencontro, Haddad preferiu dizer que o tráfico dificulta a realização do programa da Prefeitura voltado para a recuperação dos dependentes: "Não conseguimos trabalhar com assistência na presença de um traficante armado". Independentemente do mérito discutível de seu programa De Braços Abertos, ele tem razão quanto ao tráfico. Mas a ação contra os traficantes, como ele sabe perfeitamente, depende das Polícias Civil e Militar. Logo, sem estreita colaboração da Prefeitura e do Estado - e foi ao contrário disso que acabamos de assistir -, não se avançará na solução do problema da Cracolândia.

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