Retrocesso no Egito

Um golpe de Estado com maciço apoio popular continua sendo um golpe de Estado - um ato de força contra um governante levado ao poder pelo voto, numa disputa livre e competitiva. Em junho do ano passado, 16 meses depois da queda do ditador egípcio Hosni Mubarak, em seguida à irrupção de um movimento de massa sem precedentes no país, Mohamed Morsi, do Partido Liberdade e Justiça (PLJ), braço político da Irmandade Muçulmana, tornou-se o primeiro presidente democraticamente eleito da história nacional. Ele superou por estreita margem o candidato Ahmed Shafiq, ligado ao antigo regime. Divididos, os partidos liberais que brotaram com a segunda floração da Primavera Árabe (a primeira foi a da Tunísia) não conseguiram chegar ao turno final - de outro modo, quem sabe, o Egito teria sido poupado do retrocesso que acaba de se consumar com a derrubada de Morsi.

O Estado de S.Paulo

05 Julho 2013 | 02h08

Oito meses antes de sua vitória, a Irmandade - perseguida pelos governos durante a maior parte de seus 85 anos de existência - provou ser a mais enraizada organização civil do país, menos, talvez, por sua pregação islâmica do que por prover as legiões de compatriotas miseráveis da assistência que o Estado jamais lhes proporcionou. Essa também foi a origem da popularidade do Hamas nos territórios palestinos e dos chamados integristas na Argélia, para citar dois lugares onde os seus partidos ganharam eleições, mas não levaram.

No pleito parlamentar de novembro de 2011, o primeiro exercício democrático do que parecia ser o novo Egito, embora ainda sob a tutela dos militares que se desfizeram de Mubarak, o PLJ obteve 43% dos votos. O partido Al-Nour, ainda mais radical, 22%. Ou seja, 2/3 dos eleitores sufragaram legendas ligadas à Irmandade.

Passados meros 60 dias, a Justiça, que servira docilmente à ditadura, dissolveu o Parlamento, alegando irregularidades na composição de suas bancadas. A decisão foi anulada por Morsi pouco depois de tomar posse, mas o fato é que só a Câmara Alta do país permaneceu aberta. De uma forma ou de outra, o breve governo Morsi consistiu no confronto entre os mais poderosos setores organizados do Egito - a Irmandade e o "Estado profundo", codinome da estrutura cujo topo é ocupado pelo Exército desde a queda da monarquia, em 1952. Os militares nunca assimilaram o primeiro presidente civil do país. E este ergueu uma pirâmide de erros que acabaram por mobilizar contra ele multidões ainda mais numerosas e iradas do que aquelas que demandavam, na célebre Praça Tahrir, o advento da democracia. O resultado foi a aliança profana entre liberais e generais.

Na quarta-feira, a gritaria de milhões de civis em êxtase mal permitia que se ouvisse o pronunciamento - como se dizia na América Latina das quarteladas - do ministro da Defesa, general Abdul Fattah al-Sisi, exibido nos telões cairotas. Ele anunciou que, tendo expirado o prazo que as Armas deram a Morsi para que se entendesse com o povo que pedia a sua cabeça, ele tinha sido deposto, a Constituição suspensa e o governo entregue interinamente ao chefe da Corte Constitucional - no cargo há apenas dois dias -, Adly Mansour, incumbido de convocar eleições gerais em seis meses. Ele decerto será apenas a figura de proa do partido fardado que volta a dar as cartas. A Irmandade, em refluxo, se reagrupará como no passado e poderá retribuir a violência de que tem sido alvo.

É bem verdade que ela não tem argumentos para redimir o presidente caído em desgraça. Ele fracassou em todas as frentes. Não conseguiu debelar o desemprego, nem a inflação, nem a criminalidade. Em novembro passado, concedeu-se superpoderes, dos quais se viu obrigado a abrir mão dias depois, em razão de uma onda de protestos. No mês seguinte, sancionou uma Constituição de tintas islâmicas aprovada em referendo ao qual compareceu apenas 1/3 do eleitorado. Tudo isso explica o clamor pela renúncia de Morsi. Mas de forma alguma justifica o golpe. Sem meios legais para remover o presidente, a oposição violou o cerne da democracia que diz defender.

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