Ricupero, a diplomacia e o Brasil

Novo livro destaca o papel positivo da política externa na construção do País

*Celso Lafer, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2017 | 06h00

A Diplomacia na Construção do Brasil (1750-2016), de Rubens Ricupero, é um livro de fôlego. É o elaborado resultado de uma reflexão de décadas. Lastreia-se em informação abrangente e se beneficia da experiência de quem viveu as possibilidades e os limites da atuação diplomática. Tem como objetivo articular, para explicitar, como a diplomacia e a política exterior, desde a colônia até os nossos dias, são elementos fundamentais da construção do que é hoje o Brasil, a começar pela escala continental do País, que é um dos elementos identificadores da nossa presença no mundo.

Cabe lembrar que o marco diplomático inicial configurador dessa escala é o Tratado de Madri de 1750, celebrado entre Portugal e Espanha e concebido pelo secretário do rei do m João V, o brasileiro Alexandre de Gusmão, qualificado como avô da diplomacia brasileira.

Trata-se de livro único na bibliografia brasileira. Transcende o circunscrito tradicional do campo da história diplomática e oferece uma abalizada interpretação do seu papel na elaboração da vis directiva do País nos ciclos mais longos da História. Esta se apura com a perspectiva propiciada pela análise comparativa da experiência da inserção internacional de países que apresentam analogias e afinidades com o nosso.

A sensibilidade em relação aos movimentos da História nacional e internacional dão nesse livro renovada substância à esclarecedora distinção elaborada por Ricupero, há muitos anos, dos dois tradicionais eixos da ação diplomática brasileira: o das relações de simetria ou de relativa igualdade com os países de poder em situações internacionais comparável ao do Brasil, como os da América Latina, e no seu âmbito o contexto da vizinhança; e o das relações de assimetria ou desigualdade com as nações das quais nos separa uma diferenciação apreciável de poderio político e econômico, como foram no século 19 a Grã-Bretanha e no século 20 os EUA.

Essa distinção entre os dois eixos e seus desdobramentos é uma contribuição brasileira à teoria das relações internacionais e aos desafios da estratificação da ordem mundial. Ela é enriquecida pela análise das múltiplas dimensões do poder, incluído o que positivamente representou, em distintas fases da História brasileira, a diplomacia do conhecimento e do preparo intelectual.

O grande modelo da diplomacia do conhecimento e do preparo, explica Ricupero, foi o barão do Rio Branco, o admirável institution-builder do Itamaraty. Equacionou, na República, por meios pacíficos, com talento e originalidade, os problemas pendentes das fronteiras do País, liberando o caminho para o que veio a ser a diplomacia do desenvolvimento. Concebeu, nas circunstâncias da época, um válido modo de atuar do Brasil nos eixos da simetria e da assimetria. Além do mais, contribuiu de maneira decisiva para articular uma ideia do Brasil no mundo: a de um país sem ambições territoriais, em paz com seus vizinhos, confiante no Direito e no valor das soluções negociadas, empenhado em ser reconhecido como uma força de moderação e equilíbrio a serviço da criação de um sistema internacional mais equilibrado e pacífico. Essa ideia do Brasil no mundo veio a ser em distintas conjunturas e com variadas ênfases uma das notas do estilo diplomático brasileiro.

San Tiago Dantas, observa o autor, foi o grande clarificador do significado e alcance inovador do paradigma da política externa independente, no seu período de chanceler. Ele observa que “a tarefa da inteligência humana é tirar o valor das coisas da obscuridade para a luz”. Dessa tarefa Ricupero se desempenhou de maneira notável no livro, que adquire abrangência iluminadora graças à clareza pedagógica da sua palavra e do seu estilo, que revela com pleno domínio da matéria o percurso multissecular da história diplomática do Brasil e o seu papel na vida nacional. É por essa razão que o seu livro não é apenas um livro de consulta. É um livro de sedutora leitura.

Nessa obra, a interlocução com o pensamento diplomático brasileiro é explícita. Daí o interesse e o sabor de que se reveste sua análise dos agentes da política exterior no correr dos tempos e sua avaliação pessoal do que lograram em circunstâncias mais ou menos difíceis da vida brasileira. O empenho de objetividade do autor não exclui a apreciação, por vez, crítica, do encaminhamento que deram à agenda da política exterior brasileira, fundamentada em larga experiência, “de dentro”, e não “de fora”, do que é a especificidade do fazer e do operar diplomático.

As avaliações de Ricupero têm o lastro do seu domínio de questões complexas e de como se imbricam na pauta nacional e internacional. No período mais recente, têm a dimensão própria de quem viveu como testemunha ou agente o que se passou. Destaco seu empenho de objetividade com que analisa as circunstâncias internas e externas que enfrentaram os que conduziram a política externa e a diplomacia brasileira, tanto aqueles com os quais tem maior afinidade quanto aqueles com quem sua sintonia é menor.

Essa postura que atribui, tanto positiva quanto negativamente, a cada um o que é seu – clássico critério de justiça desde os romanos – merece reconhecimento e admiração. Ela percorre as páginas desse trabalho, que é um livro de amor, sem demagogia, pelo Brasil e de afetuosa apreciação do Itamaraty – instituição a que serviu como qualificadíssimo profissional, sabendo nela identificar, sem deslumbramentos, o que tem de positivo o seu estilo de ser e de viver.

O Itamaraty, diz Ricupero, evocando e parafraseando o Antonio Candido da Formação da Literatura Brasileira, se funde e se confunde com o amor maior dos “brasileiros no seu desejo de ter uma política externa”. É esse amor, com seus acertos e imperfeições e que não se saiu mal, comparado a outros setores, que o novo livro de Rubens Ricupero articula, destacando a singularidade do papel positivo da diplomacia e da política externa na construção do País.

*PROFESSOR EMÉRITO DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA USP, FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES (1992, 2001-2002)

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