Roberto Campos e Vicente Leporace

Encontro do ministro com o radialista reviveu os ideais republicanos em plena ditadura

FRANCISCO PAES DE BARROS*, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2016 | 03h00

Vale a pena relembrar um episódio ocorrido na ditadura militar que ficou para a história do jornalismo brasileiro. Naquela ocasião, os jornalistas ficavam de prontidão permanente com o intuito de aproveitar eventuais cochilos dos censores para falar a verdade proibida.

O saudoso radialista Vicente Leporace (1912-1978) tinha na Rádio Bandeirantes um programa matinal de grande audiência, O Trabuco, em que comentava as notícias não censuradas apresentadas pelos jornais.

Certa época, Leporace passou a criticar a política econômica defendida por Roberto Campos (1917-2001), ministro do Planejamento de 1964 a 1967, no governo militar. A censura não era tão rigorosa quando o assunto era economia. As críticas de Leporace eram fortes, inteligentes, muito bem-humoradas, respeitosas e cheias de artimanhas, com o propósito de driblar os censores. Toda vez que ele se referia ao ministro chamava-o de “Bob Fields”. O apelido foi dado porque o apresentador insinuava que o ministro defendia os interesses dos Estados Unidos.

Num determinado dia, Roberto Campos estava em São Paulo. Saiu cedo do hotel para o Aeroporto de Congonhas. Durante o trajeto, o taxista estava ouvindo o Leporace, que satirizava o “Bob Fields”. De repente, o ministro pediu ao motorista que mudasse o itinerário e o levasse à Rádio Bandeirantes. Chegando lá, ele foi entrando nas dependências da emissora, até chegar ao estúdio. Abriu a porta e sentou-se ao lado de Leporace. Então, diante do microfone, passou a responder às críticas com bastante humor e inteligência. Roberto Campos era preparadíssimo. Adaptou-se prontamente ao estilo do jornalista e do programa. Deixou o “economês” de lado. E sua fala se tornou de fácil entendimento para o ouvinte.

No primeiro momento, Leporace, mesmo experiente, sentiu o impacto da presença do ministro. Logo depois, porém, ficou à vontade. Foi um ótimo programa, que entrou para a história do radiojornalismo. Os dois estavam buscando, por caminhos diferentes, a verdade da realidade brasileira. Cada um à sua maneira. O público foi o grande vencedor do debate: ouviu opiniões opostas, contundentes, sem que nenhum dos dois fosse desrespeitado. Quem mais se sentiu respeitado foi o próprio ouvinte. Por um curto tempo, os ideais republicanos foram revividos em plena ditadura. Que ironia!

Rui Barbosa, se vivo fosse e tivesse ouvido o programa, teria dito que Vicente Leporace era um jornalista nato. Mas, apesar de tudo, houve gente que acabou não gostando do comportamento de Leporace: os sensacionalistas. Eles queriam um debate dramático, espetacular e sensacional. Queriam um debate que provocasse ódio no ouvinte, com vaias. Ou um arrepio de admiração, com aplausos e um suspiro grande, Ah!!!... (inspirado no texto Os sensacionalistas, do saudoso Fulton Sheen, bispo de Nova York).

Imagino que os sensacionalistas radicais tenham ficado profundamente decepcionados com a reação de Leporace. Gostariam de ter presenciado uma postura diferente do radialista quando da entrada do ministro no estúdio. Eles queriam, da boca de Leporace, algo mais ou menos assim: “Meus ouvintes, o estúdio está sendo invadido pelo chefe da quadrilha dos vendilhões do Brasil, Bob Fields. Por certo, ele está acompanhado de agentes policiais... Querem me prender e me torturar até à morte. Bob, saiba que morrerei com dignidade, sem me arrepender do que tenho dito a respeito de você, chefe da quadrilha da CIA no Brasil. Meu sangue será derramado pelo bem do Brasil. Você é um traidor da Pátria. Eu me sinto confortado em poder dizer-lhe tudo isso olhando para os seus olhos”.

Sim: para os sensacionalistas, pouco importa a ação de caluniar e difamar um ser humano. O que lhes interessa é o espetáculo, é a fama.

Parafraseando Fulton Sheen, eu diria que, na concepção dos sensacionalistas, o jornalismo tem de ser sempre impactante, isto é, uma coisa que eles pretendem aquilatar e julgar em função das suas próprias sensações, em vez de a julgarem à luz do espírito e pelo critério do dever; uma fonte de vibrações espetaculares, em vez de ser um manancial de humildade.

A missão do jornalista é buscar incessantemente a verdade. A verdade e o sensacionalismo são antagônicos. A verdade nunca é exibicionista e espetacular. O seu nome é santificado. Como disse o grande Rui Barbosa: “Damos a vida pela pátria. Deixamos a pátria pela liberdade. Mas pátria e liberdade renunciamos pela verdade. Porque este é o mais santo de todos os amores. Os outros são da terra e do tempo. Este vem do céu, e vai à eternidade”.

O jornalista autêntico, na busca da verdade, usa todas as suas forças. Muitas vezes tem de ser determinado e corajoso. Todavia ele segue os conselhos semelhantes aos hoje difundidos pelo papa Francisco: não se esquece de que “a soberba compromete toda boa ação”, deforma a verdade.

O jornalista autêntico é intransigente em relação à punição exemplar de pessoas que cometem erros. Porém ele sabe que há limites. Pois cada ser humano é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus. Por conseguinte, a dignidade de cada pessoa humana deve ser respeitada, independentemente de seu erro. Ela não é um objeto. Situação que leva o jornalista autêntico e equilibrado a não se tornar um fariseu – o da parábola de Jesus (cf. Lucas 18, 9-14).

Ser jornalista não é fácil. É preciso ter vocação. Ele é um sacerdote. “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. Por isso, o grande Rui Barbosa enalteceu poeticamente o jornalista, paladino da verdade: “Ao mesmo tempo um mestre de primeiras letras e um catedrático de democracia em ação, um advogado e um censor, um familiar e um magistrado. Maior responsabilidade, pois, não pode assumir um homem para consigo, para com o próximo, para com Deus.”

* FRANCISCO PAES DE BARROS  É RADIALISTA 

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