Roteiros para a civilidade

A falta de seriedade revelada pela cultura do faz de conta em nosso país, objeto do meu último artigo nesta página, somada à epidemia de nonsense, abordada ainda em outro artigo, deixou-me em inevitável clima de desalento. Estaria mesmo tudo perdido?

MIGUEL REALE JÚNIOR, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2014 | 02h03

Estudo recente sobre perspectivas para crianças e jovens em pequena comunidade do sul da Bahia mostra uma sociedade consciente de seus defeitos e de seus sonhos, bem como dos meios necessários para dar um passo avante no sentido da realização de seus ideais. O estudo compreendeu entrevistas em três povoados litorâneos, com população de cerca de 4 mil pessoas. Foram ouvidos 205 crianças e jovens e 120 adultos, entre pais, professores e membros da sociedade.

Esse trabalho, realizado por duas psicólogas sociais, envolveu a comunidade, contando com a boa vontade de escolas, unidades de saúde e associações culturais, tendo sido positivamente aceito pela população, sempre presente às reuniões realizadas no decorrer da pesquisa. Três enfoques foram estabelecidos: conhecer o público-alvo, a sua visão do futuro e o caminho imaginado para a transformação. No primeiro enfoque, foi pesquisado o ponto de vista que as crianças e os jovens têm de si mesmos e também como são vistos pelos adultos com que se relacionam.

O retrato das crianças e dos jovens feito por eles mesmos e pelos adultos é muito severo, depreciativo mesmo, pois, se destacam como pontos positivos o que gostam de fazer, realçam como negativo a sua forma de ser. Refletindo sobre o que pensam, são e desejam, os jovens consideram positivo gostar de música, ir à praia, praticar esporte, apenas mencionando serem carinhosos. Já no aspecto negativo, eles se olham e são vistos como egoístas, desobedientes, desinteressados pelo estudo, propícios ao uso de droga e álcool, agressivos e prepotentes, irresponsáveis pelo sexo sem uso de camisinha, influenciáveis e bagunceiros.

As crianças e os jovens foram indagados, então, acerca de como seria a comunidade ideal daquele lugar em 2018 e quais qualidades deveriam ter os jovens para estar adequados a essa situação ideal. As qualidades numa sociedade ideal seriam, para os jovens, humildade, obediência, honestidade, dedicação ao trabalho, sexo seguro, distância das drogas, qualificação profissional, boa aparência, resistir às influências nefastas.

A grande questão, todavia, está em saber o que os jovens e a população desses povoados consideram essencial para promover esse salto de uma realidade vista severamente com traços negativos para uma situação superior, na qual as pessoas possam exercitar as virtudes consideradas ideais. São diversos os âmbitos revelados nas entrevistas como fundamentais para o alcance da melhoria das condições pessoais, buscando a realização pessoal e profissional, além da criação de clima de paz social: o afetivo, o escolar, lazer, cultural, estrutural e financeiro.

No âmbito afetivo, na medida de possível intervenção do poder público, requer-se a criação de espaço para encontro e reflexão, tornando viáveis oportunidades de familiares partilharem atividades e serem orientados.

No âmbito escolar, propõem-se professores mais preparados e motivados, cursos de pequena duração (de cabeleireiro, marceneiro, culinária, informática). Para o lazer e a fruição cultural requer-se local - a escola, por exemplo - onde haja esporte, dança, capoeira, acesso a peças teatrais, cinema, oficinas de arte, aulas de canto e de música e valorização de antigas brincadeiras.

Por fim, no campo estrutural e financeiro, os jovens clamam por ter escola organizada, água boa para beber, horta comunitária, melhoria das ruas e estradas.

A escola deve ser o centro catalisador da convivência e de desenvolvimento pessoal, além, é lógico, do seu papel de formação intelectual. Cumpre, portanto, usar a escola como lugar para encontro da comunidade, onde pais, filhos, amigos convivam na fruição de lazer e de atividades artísticas e culturais.

Os jovens não querem primacialmente objetos de consumo, eles querem convivência em clima de socialidade na busca de paz social em que prevaleça o respeito pelo outro. Essa pesquisa mostra, portanto, jovens muito conscientes de suas deficiências, dotados de compreensão do que deveriam ser e das condições necessárias, além da própria força de vontade, para que sejam dados passos avante no desenvolvimento da personalidade.

Em 2002, no Ministério da Justiça, diante do elevado número de jovens mortos por assassinato, mal ainda presente, segundo o IBGE, convidei ministros da área social para conversar, pois não se tratava de questão policial, mas social. A proposta surgida na reunião foi no sentido de transformação, como tarefa dos ministérios, de escolas da periferia em centros de convivência, com quadras de esporte, aulas, campeonatos e atividades culturais, criando-se projeto-piloto. Com minha saída, a ideia não prosperou.

Agora, passados mais de dez anos, no microcosmo de povoados litorâneos da Bahia, reafirma-se haver roteiros para a melhoria do grau de civilidade de nossa gente, sujeita apenas ao recebimento de educação formal, esquecidos os poderes públicos de dar às pessoas oportunidade de se relacionar para juntas se desenvolverem culturalmente, em espaços nos quais se sintam ouvidas e prestigiadas.

A prova está na resposta dos jovens à pergunta sobre o que gostariam de fazer se pudessem, pois aflorou o desejo não de bens materiais, surgido apenas secundariamente, prevalecendo a vontade de terem aulas de natação, dança, flauta, piano, música em geral. Em suma, o estudo conclui que as soluções propostas apontam na direção da arte, da música, da qualificação profissional e da atenção às famílias como a direção ideal a ser seguida para uma vida melhor.

No país do nonsense, há caminhos de racionalidade e de afeto. Basta ter vontade política e ouvir o povo.

MIGUEL REALE JÚNIOR, ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, FOI MINISTRO DA JUSTIÇA

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