Rumores do inferno

A livre crença vai até onde começa o direito alheio

Roberto Romano*, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2016 | 05h00

O jornal anuncia ao povo brasileiro: vereadores paulistanos transformam, de modo ilegal e sem respeito pela ética pública, o plenário da Câmara Municipal em seu templo (Estado, 4/7). Sob vários pretextos, o crime é cometido com arrogância e insulto aos que não têm a mesma crença dos edis. Trata-se de um roubo do direito cidadão: indivíduos, seitas ou igrejas não podem tomar posse de um espaço que não lhes pertence.

A proeza na Câmara marca uma evidente corrupção: a que subtrai o comum a todos, privilegia os ocupantes ocasionais do mandato popular. Cabe aos que pagam impostos, sem que lhes seja perguntado pelo Fisco qual a sua religião, protestar contra o abuso. Em Assembleias Legislativas e na Câmara dos Deputados a prática é corriqueira. No mesmo élan, mas em sentido diverso, Eduardo Cunha usa o disfarce evangélico e sua firma se chama, em perfeita simonia, “Jesus.com”.

A livre crença vai até onde começa o direito alheio. Budistas, espíritas, umbandistas, católicos e protestantes de linhas não seguidas pelos vereadores têm o direito de ter um parlamento sem privilégios de costumes, ideologias ou fé. O Estado brasileiro é laico para que todos os credos sejam respeitados por representantes, governadores, juízes e promotores. Esperemos que o Ministério Público assuma a tarefa de evitar a usurpação ocorrida na Câmara paulistana.

Mas o feio atentado (ou louvorzão) dos que se proclamam evangélicos e, portanto, donos do espaço cívico tem elos com o vácuo espiritual de instituições mais antigas, como a católica. Antes, permitam uma reflexão teológica, estética e de pastoreio. Existem pesquisas sobre o belo na Igreja, efetivadas por pensadores relevantes. Uma delas se pauta por Hans Urs von Balthasar, cujos escritos trazem o apelo para que o esplendor retorne ao universo cristão. Na mesma via Christoph Schönborn, quase papa no último conclave, analisa as formas artísticas na ordem eclesiástica. Seu livro O Ícone de Cristo aguarda versão brasileira. No protestantismo, iniciativas para unir beleza e Revelação já foram empreendidas (Cottin, J.: Dieu et la beauté, na Révue de Théologie et Philosophie 127, 1995). Católicos e protestantes – os últimos, herdeiros de Santo Agostinho – podem e devem exclamar: “Bem tarde eu te amei, ó beleza!”(Confissões).

Artes e religiões se complementam. Das antigas formas sagradas às recentes, a faina sacerdotal continua na arquitetura, pintura, música, poesia, teatro, dança e cinema. Nos cultos são usados meios de apaziguamento como o incenso, velas, tapetes, vestuários. Mais espiritual a liturgia, mais complexo e refinado o gosto. Todos se encantam em templos budistas, sinagogas judaicas, mesquitas islâmicas, igrejas cristãs, terreiros de candomblé, tabas indígenas com as cores e os sons, coreografias que automatizam simbolismos. Apenas os insensíveis entram num lugar sagrado e desprezam os atos ali desenvolvidos.

O muçulmano sobre o tapete, o católico ajoelhado, o protestante erguido ao entoar hinos sacros, o budista com as pernas curvadas em meditação regida por címbalos, o umbandista entre os atabaques, o sufi no rodopio cadenciado, todos eles rompem o limiar entre o visível e o invisível, o audível e o inaudível, o finito e o infinito. Ignorar o transcendente é ameaça aos milênios de vida humana.

Nem toda guerra tem origem religiosa: ateus, se operadores da raison d’État, usam beligerância, incluída a sectária, para impor seu império. Disse bem o bispo Dupanloup, contra os superficiais racionalistas: “Vocês nos falam de progresso, liberalismo e civilização, como se não soubéssemos uma palavra sobre tais coisas; mas aqueles vocábulos sublimes, que vocês desnaturam (...), nós lhes demos o verdadeiro sentido e a realidade sincera”(La Convention 15/9/1865). Quando projetos secularistas se instalam no poder civil e abolem os cultos religiosos, só trocam Deus por um deusinho sanguinário. Aconteceu na Revolução Francesa, na URSS, na Alemanha nazista, na Itália fascista. Ditaduras elevam tiranos ao nível divino, num culto sem beleza ou compaixão. A síntese das artes, nos complexos religiosos, nem sempre é completa. No Ocidente, a Igreja Católica seria a mais próxima de unir os cinco sentidos em formas artísticas e litúrgicas. Judeus, muçulmanos, protestantes partilham o veto às imagens e, de certa forma, remediam tal ausência com esplêndidas construções, poesia e cantos, teatro e danças.

O feio sectarismo dos edis paulistanos é um side effect da infertilidade para o bom e o belo, algo insofismável na matriz da vida cristã ocidental. Esta passa, desde o século 20, por uma crise ética, litúrgica e artística. Sua força estética e pastoral se esvai minuto a minuto. Os templos, a poesia, a música hoje nela empregados mostram incultura e sincretismo oportunista. Participem, por exemplo, de uma cerimônia católica brasileira: escutem os violões desafinados, as vozes idem, as bandas patéticas de rock que nas missas atordoam os fiéis, as técnicas emprestadas de milagreiros midiáticos, a falsa glossolalia, tudo entra no charabiá instalado no culto. Leitura útil aos que toleram ou incentivam o rebolado de padres e os urros “de louvor” que mais parecem brotar do averno: o escrito de Nigel Wilkins La Musique du Diable, 1999. Após o gregoriano e a polifonia renascentista, as sugestões barrocas e a dodecafonia, a Igreja assume o ruído das “baladas” juvenis sem graça e mistério, como o diabo gosta.

E fica bem clara a causa do sumiço, na ordem pública, da prudência teológica em favor de seitas agressivas que ignoram a diferença entre o público e o privado e praticam, em parlamentos que deveriam ser universais, o “louvorzão” com dinheiro e direito alheios. Firmas como “Jesus.com” fingem evangelismo. Elas seguem Pluto, patrono de quem acumula riquezas em prejuízo dos semelhantes. Na busca de poder e dinheiro, essas arapucas obedecem ao dantesco “pape Satàn, pape Satàn aleppe” (Inferno, VI, 1-2). O poeta colocou, por simonia, papas no fogo eterno. Mercenários da fé os seguirão para aquela caricatura blasfema do paraíso.

*AUTOR DE ‘BRASIL: IGREJA CONTRA ESTADO’ (KAYRÓS ED.)

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