Safra menor, mas abundante

O recuo de 4,1% na safra de grãos do período 2017-2018 em relação à colheita anterior, previsto na mais recente estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), não deverá afetar de maneira significativa o papel que os alimentos vêm tendo na contenção da inflação

O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2018 | 03h03

O recuo de 4,1% na safra de grãos do período 2017-2018 em relação à colheita anterior, previsto na mais recente estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), não deverá afetar de maneira significativa o papel que os alimentos vêm tendo na contenção da inflação. Medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação ficou em 2,95% no ano passado, abaixo do piso da margem de tolerância da política de meta inflacionária seguida pelo Banco Central, principalmente por causa da deflação dos alimentos. A despeito do recuo, a produção esperada será a segunda maior da história, menor apenas que a da safra anterior e suficiente para assegurar o tranquilo suprimento da demanda interna e as receitas com que o agronegócio vem contribuindo para produzir os superávits da balança comercial do País.

No quarto levantamento da safra de grãos 2017-2018, realizado com o plantio das principais culturas já encerrado, a Conab previu a produção de 227,9 milhões de toneladas de grãos (a safra anterior somou 237,7 milhões de toneladas). A área cultivada deverá ter crescimento de 1,1% em relação à da safra anterior - atingindo 61,53 milhões de hectares -, com o que a produtividade deverá registrar pequena diminuição. Como a queda da produção, a redução da produtividade não deverá ser preocupante, visto que a agricultura brasileira alcançou alto nível de rendimento na comparação com os resultados de seus principais concorrentes, graças a modelos de gestão modernos e emprego de equipamentos, sementes e insumos mais adequados.

Utilizando metodologia diferente da empregada pela Conab, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também projeta redução do volume na próxima safra, com produção de 224,3 milhões de toneladas, 6,8% menor que a da safra anterior. Embora as condições climáticas tenham melhorado, houve atraso no plantio da soja e pode ocorrer atraso no plantio do milho da segunda safra, de acordo com o analista da Coordenação de Agropecuária do IBGE Carlos Alfredo Guedes.

Mesmo assim, o resultado do novo prognóstico do IBGE para a safra de cereais, leguminosas e oleaginosas é 4,8 milhões de toneladas maior do que o estimado no estudo anterior. É a consequência, segundo o IBGE, de condições climáticas mais favoráveis para a agricultura em dezembro, quando a pesquisa foi realizada. Além disso, Guedes ressalva que a safra de soja pode ser a segunda maior da história, da mesma forma que a safra total de grãos. Entre os cinco produtos de maior importância, três devem ter produção menor: arroz em casca (-5,9%), milho da primeira safra (-14,4%) e soja em grão (-2,4%). Deverão ter aumento de produção algodão herbáceo em caroço (4,7%) e feijão da primeira safra (5,0%).

A despeito dessas oscilações, a safra que está sendo estimada no momento tanto pela Conab como pelo IBGE é expressiva. "Apesar da queda em relação a 2017, 224 milhões de toneladas é a segunda melhor estimativa que temos", observa o analista do IBGE. "É um volume muito alto e com certeza deve continuar ajudando a segurar um pouco a inflação neste ano."

A base de comparação (a safra anterior) é muito alta e, por isso, mesmo com a redução da produção de itens importantes da mesa dos brasileiros, não há sinais de problemas de abastecimento desses produtos. Na avaliação do IBGE, as reduções previstas na produção de milho e soja, por exemplo, não deverão ser suficientes para pressionar as cotações desses itens. No caso do milho, a relativa estabilidade de preços no mercado interno deverá ser assegurada pela existência de estoques elevados; no da soja, seus preços são determinados no mercado internacional, que não deverá ser muito afetado pela oscilação da produção brasileira. O feijão poderia afetar os preços internos dos alimentos, mas por enquanto a previsão é de uma boa safra. "Acreditamos que neste primeiro momento os alimentos continuarão favorecendo os índices (de preços)", completou o analista do IBGE.

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