São Paulo não merece isso

Se não consegue realizar de maneira minimamente civilizada e esclarecedora para a população uma disputa interna para a escolha de seu candidato a prefeito de São Paulo, é difícil de imaginar que o PSDB seja capaz de oferecer ao eleitorado paulistano uma alternativa responsável e competitiva à candidatura petista de Fernando Haddad, que, a despeito do desastre que tem sido sua gestão, parece ser nome certo de seu partido para a disputa de outubro. Houve muita coisa condenável na disputa tucana. Brigas entre militantes, acusações entre os postulantes à candidatura e uso indevido de recursos financeiros marcaram o primeiro turno das prévias do partido realizadas domingo. O que não houve ao longo de todo o processo foi apresentação e discussão de propostas viáveis para a solução dos imensos problemas que naturalmente surgem numa metrópole das dimensões de São Paulo, aos quais a atual gestão municipal acrescentou muitos outros, sobretudo na área de circulação urbana, com base num desenfreado populismo de natureza puramente eleitoral.

O Estado de S.Paulo

01 Março 2016 | 02h55

Além de escancarar as profundas divergências no tucanato paulista – pois suas principais lideranças estaduais se envolveram direta e ativamente na disputa pela escolha do candidato da legenda para o cargo de prefeito paulistano –, a votação mostrou um partido formado por pessoas que, na defesa deste ou daquele nome, são capazes de criar tumultos, agredir fisicamente seus adversários e recorrer a todos os meios para inviabilizar ou obstar outras candidaturas. Mostrou também um agrupamento político desinteressado nos reais problemas que seu candidato, se eleito, terá de enfrentar; mostrou, enfim, um partido incapaz de apresentar e discutir ideias e planos.

As principais lideranças do tucanato entraram na disputa paulistana, apoiando abertamente um dos três pré-candidatos que se apresentaram para obter a indicação do partido para disputar a eleição de outubro. Mas sua ativa participação na disputa interna paulistana tem menos a ver com seu eventual interesse pela administração municipal do que com suas pretensões políticas. Estão de olho não em outubro de 2016, mas em outubro de 2018, quando haverá eleições para deputado, senador, governador e presidente da República. Imaginam que, se vencerem a disputa paulistana, ficarão mais fortes para o confronto que se avizinha com outros correligionários.

A disputa paulistana desandou para a baderna. No Tatuapé, o local de votação – um clube de malha – foi invadido por pessoas não identificadas que quebraram o computador que servia de urna eletrônica e a impressora que imprimia os votos. Depois, houve tentativa de roubo da urna. Para completar, grupos de apoiadores dos candidatos João Doria Jr. e Ricardo Tripoli brigaram na rua, cada um acusando o outro pelo início da confusão. A Polícia Militar teve de encerrar a votação antes da hora, para acabar com a baderna.

O postulante que obteve o maior número de votos (2.681), o empresário João Doria Jr., teve o apoio explícito do governador Geraldo Alckmin; o segundo colocado (2.045 votos), vereador Andrea Matarazzo, foi apoiado, entre outros, pelo senador José Serra e pelo ex-governador Alberto Goldman; o terceiro (1.387 votos), excluído do segundo turno, foi o deputado federal Ricardo Tripoli, apoiado pelo deputado Bruno Covas e pelo ex-deputado José Aníbal.

Goldman e Aníbal encaminharam à direção do partido pedido de impugnação da candidatura Doria por “condutas ilegais” – por meio do que acusam ser propaganda ilegal e transporte de eleitores –, “abuso de poder econômico” e desrespeito à Lei Cidade Limpa. Matarazzo acusou seu adversário de querer ganhar por meio do poder econômico “e na mão grande”. Doria, de sua parte, acusa seus adversários de tentar usar o “tapetão” para vencer a disputa. Todos parecem estar certos.

Se entre eles mesmos os tucanos agem desse modo, como agirão quando enfrentarem os verdadeiros adversários políticos, como os que apoiarem o candidato da situação na disputa eleitoral?

São Paulo merece coisa melhor.

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