Seca a CPI do Cachoeira

Sem, talvez, o grosseiro erro de concordância da mensagem do deputado petista por São Paulo Cândido Vaccarezza ao governador fluminense Sérgio Cabral, pode-se apostar que um certo número de integrantes da CPI do Cachoeira poderia tranquilizar nos mesmos termos qualquer figurão da política ou dos negócios ameaçado de se tornar alvo do inquérito parlamentar das duas Casas do Congresso sobre as relações do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com agentes públicos e privados. Em plena sessão do colegiado, na quinta-feira, um cinegrafista flagrou o inadvertido ex-líder do governo na Câmara escrevendo ao peemedebista Cabral no celular: "A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso e nós somos teu (sic)".

O Estado de S.Paulo

20 Maio 2012 | 03h04

A convicção de que Vaccarezza está longe de deter, entre os seus pares, o monopólio da proteção a possíveis protagonistas da trama da qual Cachoeira é o pivô ganhou força com as decisões tomadas naquela mesma sessão pelo relator da investigação, deputado Odair Cunha, do PT de Minas Gerais - com o apoio tácito ou explícito de setores da oposição -, secando a CPI. Como se temia, ele blindou os governadores de Goiás, o tucano Marconi Perillo; o do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz; e o do Rio, o já citado Cabral, contra tentativas de apurar o envolvimento deles, ou com Cachoeira, ou com o dono da construtora Delta, Fernando Cavendish, de cuja empresa o contraventor seria "sócio oculto", no dizer do Ministério Público. Foram igualmente poupados de convocação para depor ou da quebra dos seus sigilos o empresário, a empreiteira sediada no Rio e três deputados da turma de Cachoeira.

Para que não se dissesse que melhor faria a CPI se, para todos os efeitos, desse os trâmites por findos, o relator aprovou 51 convocações e 40 quebras de sigilo fiscal, bancário e telefônico. Os visados são familiares, operadores e cupinchas do batoteiro; o ex-diretor da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, preso em 25 de abril; as filiais da companhia em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Distrito Federal; o tesoureiro da campanha de Perillo e porta-voz do seu governo, Jayme Rincon; e o ex-chefe de gabinete de Agnelo Queiroz, Cláudio Monteiro. Quanto aos dois outros governadores, acertaram-se os partidos que são "teu" como diria Vaccarezza. Em vez de Cavendish, um ex-preposto. Em vez da Delta matriz, as suas distantes filiais. "Falta de indícios", a mentirosa justificativa que raros membros da CPI rejeitaram. Citem-se, por justiça, os senadores Pedro Taques, do PDT de Mato Grosso, e Randolfe Rodrigues, do PSOL do Amapá.

Contrariamente ao que o dono da Delta quis fazer crer, os nexos da cúpula da empresa com o bicheiro foram constatados em pelo menos 22 telefonemas interceptados pela Polícia Federal. E o nome de Cavendish aparece em conversas de Cachoeira com o senador Demóstenes Torres, enredado em negócios com as duas pontas da linha. Sem investigar o empreiteiro, que certa vez proclamou que, "se botar 30 milhões na mão de um político", seria convidado "pra coisa pra …", aí sim não se chegará aos eventuais malfeitos do governador do Estado onde a Delta, em cinco anos da gestão Cabral, fechou contratos no valor de R$ 1,49 bilhão. O que é notório é a proximidade entre ambos, incluindo cenas de esbórnia explícita em Paris. À falta de provas objetivas, sobrevive a palavra de Cabral de que não mistura governo e amizades, não obstante o prestimoso Vaccarezza ter achado necessário acalmá-lo com a lembrança de que ele é "nosso".

Por fim, sem investigar a Delta, aí sim não se chegará às eventuais traficâncias que poderiam ter sido providenciais para torná-la a maior executora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Desde 2003, nenhuma firma de nenhum ramo recebe tanto do governo federal. Só no ano passado, ela faturou R$ 862,4 milhões por obras em 20 Estados. As irregularidades descobertas nos respectivos contratos montam a R$ 632 milhões. A Delta está para ser considerada "inidônea" pela Controladoria-Geral da União. Em 2010, doou R$ 2,3 milhões, divididos praticamente ao meio, ao PT e ao PMDB.

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