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Sem força para crescer

O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2014 | 02h 06

O tombo do primeiro semestre será seguido por mais um desastre no segundo e o Brasil chegará ao fim do ano com um crescimento econômico de 0,52%, segundo a última pesquisa Focus do Banco Central (BC). Poucos países, com a evidente exceção de Venezuela e Argentina, modelos para as autoridades de Brasília, tiveram um desempenho tão ruim quanto o brasileiro nos primeiros seis meses de 2014, embora a presidente Dilma Rousseff insista em dizer o contrário. Na semana anterior, a pesquisa do BC ainda havia apontado uma projeção de 0,70%. Na última sexta-feira, os economistas do mercado cortaram sua estimativa pela 14.ª vez consecutiva. A nota especial, desta vez, foi a coincidência: no mesmo dia, às 9 horas, havia saído a notícia oficial da recessão técnica, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Produto Interno Bruto (PIB) havia diminuído mais 0,6%, depois de ter encolhido 0,2% nos primeiros três meses, e havia ficado em 0,9% do contabilizado entre abril e maio de 2013.

Os economistas consultados na pesquisa Focus mexeram também na projeção do próximo ano e reduziram de 1,2% para 1,1% o crescimento esperado para 2015. Segundo eles, a fraqueza econômica do Brasil está longe, portanto, de ser passageira. Também entre economistas de fora essa é uma percepção cada vez mais comum. Instituições multilaterais têm projetado baixo crescimento para o Brasil neste ano e no próximo, mesmo com uma recuperação mais firme da economia global. Nos últimos anos, segundo o diagnóstico apontado por um número crescente de analistas, o País perdeu capacidade de expansão econômica. O Brasil tem hoje potencial para crescer entre 1% e 1,5%, segundo o economista Mario Mesquita, ex-diretor de Política Econômica do BC e hoje sócio do Banco Brasil Plural. Essa avaliação foi citada pelo jornal Valor.

Até recentemente, as avaliações do potencial de crescimento estavam na faixa de 2% a 3%. Esse é um cálculo especialmente difícil e impreciso, reconhecem os economistas, mas é possível apontar com razoável segurança a tendência de aumento ou de redução do potencial. No caso do Brasil, quatro anos de baixo crescimento, de investimento nanico e de evidente piora das contas externas e do balanço de pagamentos indicam de forma inequívoca a perda de musculatura da economia, especialmente no setor industrial.

A nova queda do investimento apontada pelas contas nacionais confirma claramente a redução da capacidade de crescer. Sem maior aplicação de recursos na formação de capital fixo - máquinas, instalações fabris, infraestrutura, etc. -, qualquer novo esforço de expansão dos negócios levará, em pouco tempo, a mais inflação e mais desequilíbrio externo.

O governo se recusa, no entanto, a reconhecer a perda de potencial de crescimento e continua prometendo melhor desempenho neste semestre. Mas um resultado pouco melhor em um semestre pouco significará, porque faltarão condições para uma recuperação sustentada.

Em sua permanente recusa de admitir os fatos, a presidente Dilma Rousseff continua atribuindo o mau desempenho do Brasil às condições internacionais. Segundo ela, só China, Estados Unidos e Reino Unido se saíram bem no segundo trimestre. Nos demais países, acrescentou, houve uma "redução dramática do crescimento".

Com ou sem piora, outros países tiveram desempenho muito melhor que o do Brasil. No segundo trimestre o PIB chileno foi 1,9% maior que o de um ano antes. No Peru, o resultado foi 1,7% superior ao de abril a junho de 2013. No caso da Colômbia, o último número disponível é o do primeiro trimestre, quando a produção superou por 6,4% a de igual período do ano anterior. Nos Estados Unidos, a diferença entre o valor produzido no segundo trimestre deste ano e o verificado um ano antes ficou em 2,5%. Alemanha, Rússia e França também exibiram diferenças positivas. O desastre brasileiro - PIB trimestral 0,9% inferior ao de um ano antes - é, em parte, explicável também por essa insistência em rejeitar a realidade.

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